Relatório Forum Onda Cidadã 2012 – Beá Meira

Não se trata de um texto tradicional, mas de outra forma de ver e explicar as coisas. É assim o relatório da “observadora” do III Fórum Onda Cidadã, ocorrido nos dias 23 e 24 de agosto, na Sala vermelha, no Itaú Cultural, em São Paulo. Beá Meira é ilustradora e artista gráfica, coordenadora pedagógica da Universidade das Quebradas, projeto de extensão da UFRJ. Formada pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo, (USP – 1985), autora de livros didáticos e paradidáticos na área de artes. Logo mais publicaremos outro texto sobre o fórum, aquele produzido por Ivana Bentes.
Ainda sobre Beá Meira.
http://www.beameira.com e http://cadernosdabea.blogspot.com.br/

10 movimentos atuais inevitáveis do midialivrismo

Fábio Malini *

O programa Onda Cidadã, do Itaú Cultural, lança a primeira versão do Mapeamento sobre Mídias Livres no Brasil, iniciado durante o ano de 2009. O mapeamento é composto de mais de 250 iniciativas de midialivrismo e ativismo cultural. E analisa os tipos de veículos de comunicação, as formas de sustentabilidade, as metodologias de trabalho, os tipos de profissionais, os públicos preferenciais, enfim, toda uma gama de informações sobre a cadeia produtiva do que se tem chamado de “cultura livre” no Brasil.

A escolha dos mapeados, nesta primeira fase, se deu através da junção das mais de 40 iniciativas que participaram do I Fórum Onda Cidadã no Rio de Janeiro, em 2007, com a lista de pontos de mídias livres premiados e/ou classificados nos editais do Ministério da Cultura. Com total de 250 experiências, o Mapeamento das Mídias Livres congrega iniciativas reconhecida como modelos na produção de cultura livre no país.  O instrumento de pesquisa adotado para o mapeamento foi o formulário online, com perguntas fechadas e abertas. Após a aplicação, os formulários preenchidos foram checados para que se identificasse possível erros. Cerca de 180 deles revelaram algum problema de preenchimento. Para solucioná-los, a equipe telefonou para cada um dos mapeados, corrigindo esses erros. Após essa fase, os dados foram reunidos e tabulados, apresentando os resultados a seguir, sinteticamente, na forma de gráficos, que você pode conferir mais detalhamente aqui e aqui. As iniciativas midialivristas ainda foram transpostas para um mapa interativo, onde o usuário pode acessá-lo na íntegra.

Pesquisador Fabio Malini fala sobre mapeamento Onda Cidadã by ondacidada

1. Quanto maior a população conectada, maior é (e será) o midialivrismo.

O Mapeamento registra iniciativas em todos os estados. Dos 250 mapeados, a maior parte se concentra na região Sudeste (48%). Mas destaca-se na amostra a região nordeste (16%), que se tornou uma área de atuação de vários organizações sociais ligadas ao campo da cultura. É claro também que o gráfico reproduz uma correlação direta entre população e iniciativas midialivristas. Nordeste e Sudeste são as regiões brasileiras mais populosas e é de se esperar que, neste caso, apareça um volume grande de iniciativas de cultura livre. Contudo, é importante salientar que no Nordeste e Norte situações como o baixo acesso à internet criam limitações na produção midialivrista.

2. Midialivrismo não parará de ser digital e em rede

Um dados mais interessantes da pesquisa revela que a internet é o veículo mais utilizados pelos midialivristas: 50% das experiências de mídias independentes são realizações que ocorrem na web. Há uma dupla interpretação para esse fenômeno. Por um lado, a existência de serviços na web que permitem publicação automática de vídeos, textos, sons e fotos. Isso fez explodir o surgimento de sites e blogs independentes marcados pela especialização e pela boa qualidade profissional de conteúdo multimídia. De outro lado, a formidável criação de máquinas de compartilhamento de notícias, inauguradas pelas chamadas redes sociais, permitiu se  dispor e monitorar melhor os públicos, agora, transformados em parceiros, seguidores ou amigos. Esse duplo fenômeno fez inaugurar novos modos de engajamento em torno da informação, novos modos de cálculo do alcance de uma notícia e a brutal partipação do públicos nos temas mais relevantes do espaço público midiático. Essa metamorfose no campo da publicação permitiu que mídias livres passassem a projetar na internet o seu locus mais genuíno de realização.

Assim, se, na década de 90, a utopia digital é a de transformação de todas as organizações e indivíduos online em portais de notícias, o que significava uma inflação de sites e hiperlinks num só domínio, altos custos com gerenciadores customizados de conteúdo e contratação de mão-de-obra cara e especializada (diga-se de passagem: modelo este ventilado pelas corporações de mídia da época); na primeira década do século XXI, a revolução do compartilhamento pós-Napster difundiu, no sentido inverso, a transformação de todos em uma página única (perfil) na internet, criando uma nova economia política da informação, cujo valor não decorre do controle das das “mensagens às massas” e do acúmulo e irradiação de conteúdos; mas da capacidade de conectar pessoas a informações, a ações e a outras pessoas, liberando-as para compartilhar todo tipo de conteúdo na rede. No atual paradigma do compartilhamento livestream, ao alimentar a criação de novos perfis de redes sociais, o valor reside na quantidade de interações geradas e na socialização dos conteúdos.

É por isso que hoje as iniciativas  de mídia mais valorizadas, como Facebook ou Twitter, se caracterizam por nada produzir de conteúdo, elas somente possibilitam, com suas plataformas, que um jornal ou o seu respectivo leitor atue, de modo igual, como criador e replicador de mensagens multimídia. Sem dúvida que isso acaba por constituir uma nova hierarquização social, tanto em termos de capitais (a hegemonia de empresas como facebook, Apple e Google sobre a indústria da notícia), quanto do ponto de vista da relação capital-trabalho (o furto do tempo social para criar gratuitamente valor e inovação às corporações de tecnologia).

Contudo, é inegável destacar que, nesse novo cenário de mídia, publicar significa que existem muito mais meios de comunicação social e que o “assunto do momento” não é apenas produto da rotina produtiva das instituições da notícia (imprensa), mas gerado pela mistura de veículos formais, coletivos informais e indivíduos, que fazem provocar a emergência não somente de novas formas de espalhar, de modo colaborativo, as notícias, mas sobretudo de contá-las. “A mesma ideia, publicada em dezenas ou centenas de lugares, pode ter um efeito amplificador que pesa mais do que o veredicto de um pequeno conjunto de mídias profissionais” (Shirky, 2008, p..67).

3. Mídia livre é cada vez mais utilizada como metodologia de projetos sociais de ONGs e governos: a mídia livre institucional/empresarial

Há uma pluralidade organizacional no âmbito do  comunicação independente.O gráfico demonstra que o midialivrismo se move em torne de três grupos: organizações sociais, coletivos e pequenos empreendedores. Assim, no mapeamento, encontramos  três modos de atuação midialivrista. O primeiro se realiza dentro das organizações sociais do terceiro setor (ongs, oscip, fundações, movimentos comunitários). Representam, no gráfico ao lado, 56% das mídias livres.São iniciativas de mídia associadas à projetos culturais/sociais. Mas a marca principal é a sua institucionalidade na forma de “organização social”. Em geral, mídias livres institucionalizadas são herdeiras do midiativismo de massa das décadas de 80 e 90, quando rádios comunitárias, imprensa sindical e organizações não-governamentais começam a lutar mais duramente pelo direito à comunicação, ao mesmo tempo que vão adquirindo “musculatura midiática”, ao conseguir concessões públicas de rádio e tevê e estruturas mais profissionalizadas para seus próprios veículos.

4. Experimentação na linguagem, cultura livre e democratização da comunicação formam cada vez mais o ideário do midialivrismo

O segundo tipo de mídia livre são os coletivos culturais (grupos, sites, revistas, que somados representam 32% das iniciativas estudadas). São grupos sociais formalizados ou não, cujo principal valor se explicita na experimentação.  O interessante dos coletivos é que eles são produtores de conteúdos e de linguagens experimentais ao mesmo tempo que são agentes políticos que exigem multiplicidade, novas formas de compartilhamento do conhecimento e democratização da comunicação.

5. Realizadores de mídia livre são empreendedores políticos.

E o terceiro modelo de mídia livre acontece no interior de blogs e sites independentes. Experiências que estamos chamando de ‘mídia de um homem só’, marcadas pela atuação de indivíduos na produção de opinião e notícias relevantes nos espaços públicos locais e nacionais. Esta ação individual cada vez mais é formalizada em uma institucionalidade microempreendedora, criando a figura dos chamados “empresários progressistas da comunicação”.

6. Estudante de jornalismo de hoje é o midialivrista de amanhã

A maior parte dos coletivos, instituições e inciaitivas individuais mais organizados de produção de mídia tem a presença do profissional formado em Jornalismo. A presença também é um marco tendencial simples de compreender:  após  a emergência da internet como suporte para a produção de notícias, jornalistas foram estimulados a produzir seus conteúdos de modo autônomo na rede, articulando uma nova cena de publicações de imprensa, alargando o espaço público midiático, o que fez acelerar um processo de renovação na linguagem jornalística e o aparecimento de uma profusão de periódicos especializados, com conteúdo atualizado e apurado de dentro dos acontecimentos. Essa cena mais blogueira do que corporativa só terá força à medida que se constitui de modo coletivo, como blogs de humor, blogs de cultura, blogs de economia, enfim, menos como um ato solitário e mais como uma ação coletiva. Essa “ação entre amigos” promoverá um rearranjo político naquilo que se convencionou no século passado de “opinião pública”. Se o jornalismo atua dentro dessas experiências, há de se argumentar que a produção de narrativas atuais e histórias, abrangentes e especializadas, e com denúncias e e críticas sobre o cotidiano que vivemos é algo que estão presentes na prática de vida midialivrista.

7. Formalização midialivrista chega com precarização

Há uma tendência forte de formalização do midialivrismo: 71% das iniciativas são feitas em organizações que possuem CNPJ. Sem dúvida, isso guarda relação com o permanente financiamento público via editais, ocorridos na última década, que exigem, com frequência, a institucionalidade formal como critério de acesso à recursos públicos e privado (em muitos casos, existe o aluguel de CNPJ, como estratégia de obtenção de recursos, gerando uma prática de cnpjotagem da cultura).

Contudo, essa tendência de formalização continua a se  realizar, embora boa parte do midialivrismo ainda esteja submetido a processos de trabalho precarizados. Para se ter uma ideia, 46% das pessoas envolvidas nas iniciativas estudadas atuam de forma voluntária. E 33% contrata free-lancers para o dia a dia do suas atividades.

Um outro dado que explicita essa precarização é a autonomia em relação à sede.  Apenas 51% das iniciativas estudadas possuem sede própria. Ausência de espaço próprio de atuação cria limitações no próprio amadurecimento da qualidade do trabalho e da ampliação da abrangência das atividades.

8. Produtos e processos próprios serão os principais recursos que o midialivrista possuirá para obter ganhos econômicos

É dentro desse quadro de precarização que a sustentabilidade é praticada por midialivristas e instituições. A pesquisa demonstrou que há um leque maior de estratégias de sustentação financeira dessas iniciativas. E não há entre elas o predomínio de uma única fonte de recurso para financiamento das atividades. O que conta ainda é uma certa “se-virologia”: a maior parte do trabalho é autônomo, sem vínculos formais e contratos de trabalho definidos, com excecção do midialivrismo institucional, onde o trabalho é mais organizado, mas a autonomia de trabalho é menor, já que os temas de trabalho obedecem a diferenets agendas institucionais.  O que há de novo – memso entre os precários – é a venda de produtos (modo de vida peculiar de se fazer uma notícia) como estratégia de ganho de renda, através de práticas como cobrança de mensalidades, prestação de serviços de assessoria/consultoria e realização de oficinas/palestras/coberturas. E isso demarca o fato de que o trabalho midialivrista é, ao mesmo tempo, uma atuação na produção de linguagens comunicacionais, mas, sobretudo, de conhecimento sobre o funcionamento de ferramentas, de construção de públicos e de produção de redes, para citar três habilidades típicas da geração que cria por conta própria (sem contrato de trabalho, o que é um grande problema), para além da cultura da doação e do patrocínio.

9. Nichos deverão ser cada vez mais mobilizados para fins econômicos.

A maior parte desses três modos de midialivrismo tem como unidade de atuação o território local: 51% das mídias livres tem sua comunicação  voltada à cidade e/ou ao bairro. A pesquisa revela que, mesmo sendo iniciativas interconectadas em rede, as mídias livres mobilizam realidades próximas a de seus autores/realizadores. Isso reforça a tese de que, com o incremento de alternativas tecnológicas de produção de informação e o barateamento da distribuição de conteúdo (principalmente online), as mídias livres passaram a ocupar os chamados nichos culturais, constituindo públicos assíduos e leais a seus produtos.

Assim, as mídias livres emergem como novos atores do espaço público informacional, mas trazendo consigo um dilema curioso, uma espécie de “sina dos nichos”, isto é, o fato de só existirem por ocupar uma franja de público que se nega a uma certa massificação. Quanto mais fragmentado o  público, mais forte é a influência do blogueiro A contrapelo, guetizada em públicos específicos, essas “novas mídias” têm dificuldades na criação de assuntos comuns e mais abrangentes, influenciando pouco um universo mais amplo de grupos da sociedade. Sem dúvida, uma das atividades atuais mais interessantes no Brasil é o surgimento de iniciativas que buscam interconectar os locais, criando circuitos de informação/cultura que são, ao mesmo tempo, local e nacional/global, buscando, assim, fazer do nicho um laboratório de diferenças que possam ser massificadas, através de novas modalidades de circulação e consumo de comunicação.

10. Formação é o principal dilema para qualificação da realização de mídias livres.

A rapidez da criação de novas ferramentas e gadgets que ampliam a produtividade do trabalho midialivrista (o que poderia ser lido também acelerada descartabilidade de tantos outras) faz com que a qualificação no uso de diferentes dispositivos de gravação de som e vídeo,; publicação de textos em blogs e redes sociais; difusão e técnicas de monitoramento e SEO;  uso de aparelhos móveis de alta perfomance;  a qualificação na invenção de narrativas multimídia nativas para a internet; técnicas de uso de plugins, temas e de desenho de sites;  sem contar na necessidade de se criar estratégias de sustenbtabilidade dos veículos (em fontes de financiamento existente na própria rede)  pede uma (urgente) formação continuada do midialivrista. Na pesquisa, formação aparece como hoje o maior empecilho para a qualificação.

“Essas dez constatações sobre o midialivrismo, de qualquer forma, demonstra a existência de uma jovem ecologia de mídia no Brasil. Um sistema midiático (in)dependente que já possui forte influência entre uma população jovem, que fica mais conectada à rede cibernética do que a outra rede, a televisiva – uma transformação até difícil de acreditar, mas que segue sendo atestada por diferentes medições de audiência. E podemos concluir que há dois modos de midialivrismo em vigor, modos que já disputam espaços, públicos e recursos, numa relação de tensão e/ou complementaridade: há o modo político (institucional, ou o “midialivrismo de OS”) e o experimental (como uma nova política de mídia, ou o “midialivrismo de coletivos”). A confusão reside na constatação de que um quer ser o futuro do outro, e isso está recheado de contradições”.


* Blogueiro e professor de Novas Mídias na Universidade Federal do Espírito Santo.

Sustentabilidade das rádios comunitárias: do alto-falante à webrádio

As rádios comunitárias combinam estratégias de sobrevivência, compromisso social, estratégia política e intervenção prática. É o que defende a professora Cicilia Peruzzo, da Universidade Metodista de São Paulo.
Cicilia Maria Krohling Peruzzo (Metodista-SP)

Este texto foi produzido como análise do Forum Onda Cidadã 2007 – Grupo Mídias Impressas – no Circo Voador, RJ.

Introdução
Este texto descreve e analisa as discussões do grupo “rádios comunitárias” travadas no Forúm Onda Cidadã 2007, organizado pelo Itaú Cultural e realizado no Circo Voador, Rio Janeiro, nos dias 12 e 13 de setembro de 2007. Apresenta as principais características das organizações de rádio presentes ao evento e analisa o posicionamento de seus dirigentes a cerca do tema sustentabilidade.
Antes, porém, é preciso contextualizar o tema e destacar que a grande mídia divulga uma versão estereotipada das rádios comunitárias ao generalizá-las como “piratas”, independente do perfil de atuação. O termo “pirata” é utilizado para caracterizar ilegalidade de funcionamento e/ou para criticar interesses comerciais ou religiosos em determinadas operações no setor. No entanto, sabe-se que nem todas rádios comunitárias atuam dessa maneira e muitas delas têm como finalidade contribuir para a melhoria do desenvolvimento local mediante programação voltada para a conscientização e promoção da cidadania.
Em suma, muito do que se fala sobre rádios comunitárias é carregado de preconceito ou reflete apenas os interesses dos defensores das rádios comerciais, capitaneadas pela Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão (ABERT), que, no mínimo, representa visão parcial do fenômeno. Claro que há distorções no segmento, pois nem todas as emissoras que se autodenominam comunitárias fazem jus a essa expressão. Há rádios vinculadas a micro empresários, a irmandades religiosas e a políticos valendo-se da lei 9.612 para operar no ramo da radiodifusão local. Por outro lado, mesmo muitas emissoras que empunham a “bandeira” comunitária têm programação sofrível e tocam músicas capitaneadas pela indústria cultural quase o dia todo.
Como já enfatizado em outro texto, uma rádio comunitária é aquela que transmite programação de interesse social vinculada à realidade local, não tem fins lucrativos, permite a participação ativa e autônoma das pessoas residentes na localidade, contribui para ampliar a cidadania, democratizar a informação, melhorar a educação informal e o nível cultural dos receptores sobre temas diretamente relacionados às suas vidas.

Perfil das rádios comunitárias representadas no Onda Cidadã e como garantem sua sustentabilidade
Participaram, além da AMARC – Associação Mundial de Rádios Comunitárias, sete experiências que sinalizam bem o momento atual das rádios comunitárias no que se refere ao aspecto tecnológico e ao trabalho educativo-cultural desenvolvido. Duas são do tipo alto-falante (caixas de som instaladas em postes de luz), três operam em FM (freqüência modulada), sendo que uma delas também está on-line, e duas são webrádios que transmitem apenas através da internet.

Rádio Favela FM (Aglomerado da Serra, Belo Horizonte – MG
Fundada em 1981, esteve fora do ar em determinados períodos devido à repressão policial a serviço da ANATEL (Agência Nacional de Telecomunicações), que a fechou por três vezes. Funcionou sem autorização até 1996, quando recebeu concessão para operar como educativa e não comunitária, como pleiteava na época . Construiu uma história de sucesso.
Sua programação é musical (diversos estilos), com conteúdos que vão desde variedades (entrevistas, discussão de problemas locais etc.) à informação (notícias de hora em hora). Abre espaços para programas criados por moradores da favela e permite acesso ao microfone e ao telefone em diversos quadros.
Quanto às estratégias de sobrevivência, inicialmente se mantinha com apoio cultural de comerciantes locais e trabalho voluntário. Ultimamente agrega recursos de permuta (veiculação de campanhas educativas, entre outros) com órgãos públicos de Minas Gerais. Dessa forma, já consegue remunerar os programadores e um jornalista.

Fundação Casa Grande – Memorial do Homem Kariri (Nova Olinda – CE)
É uma ONG (organização não-governamental) caracterizada como “escola” de protagonismo e gestão cultural, cuja missão é a formação educacional de crianças e jovens em gestão cultural por intermédio de quatro programas: Memória, Comunicação, Artes e Turismo.
Entre seus programas destaca-se a rádio Casa Grande FM, dirigida por crianças e jovens que se dedicam à emissora em horários alternados ao que freqüentam as instituições regulares de ensino. Estes têm liberdade para montar a programação (10 horas diárias) que prioriza conteúdos musicais (forró, MPB, jazz, blues e instrumental) e informação com inserção de notícias e a participação de ouvintes. Os membros da Fundação recebem treinamentos sobre programação, sonoplastia, locução, conservação do acervo e gerência da emissora.
Sua sustentação é garantida por parcerias com diferentes instituições (UNICEF, Fundação Araripe, SESC, Fundação Kellog, Banco do Estado do Ceará, Ministério da Cultura, entre outros) e a autogeração de recursos por meio da Cooperativa dos Pais das Crianças da Casa Grande, entidade que gerencia o sistema local de hospedagem de turistas em pousadas familiares quando de suas visitas a cidades vizinhas. A cooperativa reverte 10% da sua receita para um fundo de educação.

Rádio Comunitária Alto-Falante (Bairro Alto José do Pinho, Recife-PE)
É uma “rádio poste”, ou seja, sua transmissão se dá por meio de caixas de som instaladas em postes no mercado do bairro Alto José do Pinho, na cidade de Recife. É mantida pela ONG Alto-Falante criada por membros de bandas do bairro que buscam, por intermédio da música, do esporte e de atividades com crianças e adolescentes, resgatar a auto-estima e a cidadania. A rádio tem o objetivo de comunicar e informar sobre assuntos de utilidade pública, social e cultural. Foi criada em 2003 com o propósito de difundir a música das bandas e grupos musicais locais que não têm espaço nas emissoras convencionais, mas aos poucos passou a enfatizar a informação, pois percebeu esta carência na “comunidade”. Atualmente 26 locutores se revezam no microfone.
A coordenação se encarrega da preparação dos jovens locutores, instruindo-os quanto ao jeito correto de falar (atenção e cuidado com a linguagem e conteúdo para evitar músicas ofensivas à criança e à mulher, por exemplo), fazer pesquisa sobre o que falar etc., pois o “ouvinte precisa ser respeitado”. Seu propósito não é ser apenas mais um meio de comunicação, mas desempenhar um papel social mobilizador. Não aceita o pagamento de “jabá” para tocar determinadas músicas e nem para destacar ou mesmo melhorar a imagem de políticos que desejam se mostrar para a comunidade/eleitores.
Todos que atuam são voluntários. Ela sobrevive de recursos da própria ONG, apoio cultural e de permutas para campanhas públicas da Secretaria da Educação. No início de suas atividades teve ajuda da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e da Fase Rio. A direção da emissora pretende aumentar a arrecadação de recursos para garantir ajuda de custo aos voluntários.

Rádio J. Sid Publicidade (Candeias – BA)
Criada em 2001, é também uma “rádio-poste” com alto-falantes instalados em quatro bairros de Candeias, na Bahia. Seu proprietário, Idevaldo Gomes Lima, se diz preocupado em colaborar para o desenvolvimento da cidadania pois o contexto está marcado por práticas políticas antiéticas e falta de consciência dos direitos e deveres. Para tanto, a programação musical é mesclada com a discussão de problemas locais e denúncias de desmandos na administração pública. O representante da Rádio J. Sid Publicidad afirmou ter rompido com o vício local de receber propina e “jabá” para veicular mensagens e músicas de interesses particulares ou corporativos.
Trata-se de uma microempresa de comunicação com alvará de funcionamento, controlada e administrada pelo proprietário, que afirma prestar serviços de interesse público visando o desenvolvimento local e da cidadania. Só ele e a esposa têm programas na rádio. Do ponto de vista da sustentabilidade econômica, o serviço de som se mantém com a veiculação de anúncios de comerciantes locais.

Rádio AfroReggae Digital (Parada de Lucas, Rio de Janeiro-RJ)
A AfroReggae Digital é uma rádio comunitária on-line produzida e apresentada por jovens participantes do Grupo Cultural AfroReggae (GCAR), ONG surgida em 1993 cujo objetivo é “desviar os jovens do caminho do narcotráfico e do subemprego”. Atua em quatro áreas do Rio de Janeiro: Parada de Lucas, Cantagalo, Complexo do Alemão e Vigário Geral. Surgiu com o apoio da ONG Radio Active, de Londres, por intermédio de Max Graef que ajuda na criação de rádios comunitárias em várias partes do mundo.
A rádio é conduzida por jovens da localidade e “serve para a favela falar o que está acontecendo” na região por ela mesma, segundo Heberson Alves dos Santos. Está aberta à participação de qualquer pessoa e oferece formação contínua aos jovens envolvidos no projeto, com orientações que vão desde o manuseio dos equipamentos até o cuidado necessário com a qualidade do conteúdo divulgado. Dessa maneira, a AfroReggae acredita estar capacitando pessoas para o mercado de trabalho, inclusive da mídia.
A sobrevivência da emissora se ancora no apoio da Rádio Active e em recursos da própria ONG AfroReggae, que tem parceria com a Petrobrás, UNESCO, Ministério da Cultura, entre outras organizações, para seus 60 projetos de ação cultural no Rio de Janeiro.

Movimento Enraizados (Morro Agudo, Rio de Janeiro-RJ)
Organização de base que tem como foco o trabalho com jovens e visa “interferir no processo social de combate às desigualdades, organizando um novo modo de pensar através da prática artística, do raciocínio tático, social e político, a fim de contribuir para a reflexão de como se pode construir uma sociedade multicultural, com igualdade e respeito às diferenças e à diversidade”. Fundado em 1999, tem como foco o hip-hop e está voltado para o desenvolvimento do protagonismo juvenil e para a ajuda mútua. A estratégia é preparar os jovens para ocuparem seu espaço no mercado musical, especialmente do rap. Sabe-se que é necessário divulgar as produções para, então, estimular o consumo. Como não há espaço na mídia comercial, foram criados espaços alternativos próprios, como CDs, shows, programas de rádio, jornal e site.
O Movimento já participou da rádio Tropical Solimões e hoje transmite programas por meio de parcerias com as rádios Alternativa FM (Nova Iguaçu) e Atitude FM. Esta última, acessível pelo dial e internet, é aberta à garotada que participa ativamente. Havendo horário disponível, segundo Flávio Eduardo da Silva Assis, o Dudu de Morro Agudo, coordenador do Movimento, qualquer pessoa pode fazer seu programa.
O Movimento Enraizados desenvolve trabalho educativo incentivando a formação de consciência crítica. Prepara pessoas por meio de oficinas de hip-hop (rap, break, grafite e DJ), serigrafia (desenho, pesquisa e informática) etc. Seus membros produzem também o jornal Voz Periférica, com tiragem de 10 mil exemplares, e participam de vários conselhos populares em bairros da região.
O Enraizados tem um braço literário, que editou, entre outros, o livro “A periferia que escreve a periferia”. O movimento se tornou uma rede que está presente em 16 estados brasileiros, cujos núcleos são independentes. Apenas se ajudam e se comunicam, mas a responsabilidade é de cada um. Sua sustentabilidade é garantida por meio de projetos e apoio cultural do comércio local, além do coordenador colocar dinheiro do próprio bolso na organização. Entre seus parceiros estão o Ministério da Cultura (Ponto da Cultura), Literacy Through Hi Hop (THH), Web Network, Suburbano Convicto, Vaza Marketing, Cultura Urbana e Studio 21.

Rádio Web Circuito Mix (Penha, São Paulo-SP)
É uma rádio na internet que fala diretamente para o público GLBT (gays, lésbicas, bissexuais e transgêneros). Começou a operar em 2004 e transmite basicamente músicas intercaladas com notas, comentários e serviços de utilidade pública (campanhas educativas). Trata de assuntos gerais e aqueles relacionados ao combate a preconceitos e a violência contra as minorias. Sua preocupação central é eliminar a exploração, o preconceito e a violência a gays, lésbicas, travestis etc.
A rádio conta com a participação de cerca de 10 pessoas de diferentes localidades na produção dos programas, mas está sob a responsabilidade de seu idealizador e diretor, Alisson da Silva Leite. É mantida com recursos próprios do seu idealizador e de parcerias com portais, baladas GLS, casas noturnas e revistas especializadas, tais como C Magazine, Portal GLS e Guia Gay Brasil.

AMARC – Associação Mundial de Rádios Comunitárias – Sub-região Brasil
ONG internacional com presença em vários países, a AMARC é um organismo de cooperação, coordenação, consulta, intercâmbio e promoção das rádios comunitárias. Sua missão consiste em promover a democracia na comunicação, especialmente via rádio, para favorecer a liberdade de expressão e contribuir para o desenvolvimento igualitário e sustentável das sociedades.
A AMARC tem visão ampla de rádio comunitária e considera que não é a forma de propriedade que a caracteriza como comunitária, segundo Sofía A Hammoe, jornalista, representante da instituição no Onda Cidadã 2007. Mantém a agência de notícias Pulsar (www.pulsar.amarc.org.) com informações em português e espanhol da América Latina e do mundo, que usa como fontes as rádios comunitárias, movimentos sociais e agências alternativas de notícias. A instituição se mantém basicamente com recursos provenientes de mensalidades de seus associados.

Significações do termo sustentabilidade do âmbito das rádios comunitárias
A primeira noção de sustentabilidade externada pelos participantes é a econômica, ou seja, a necessidade de recursos para custeio das operações e para investimentos. Nesse quesito as opiniões são divergentes. Alguns entendem que os recursos são obtidos como decorrência de um bom trabalho (havendo boa organização e ações concretas competentes, consegue-se mais facilmente recursos). Já outros consideram necessária a primazia de recursos para tocar qualquer projeto. A diferença é que, no primeiro caso, as pessoas começam com muito pouco e, às vezes, colocam o próprio dinheiro para viabilizar iniciativas de cunho social, além de buscarem o apoio de instituições parceiras. O trabalho é, geralmente, voluntário e realizado por entusiastas de causas sociais. No segundo caso, confia-se mais na publicidade como fonte de recursos para custeio e até para remunerar seus idealizadores e profissionais.
Nas experiências relatadas percebe-se basicamente esses dois tipos de situações quanto ao sustento das emissoras. A maioria sobrevive de doações de instituições mediante projetos, trabalho voluntário, inversão de recursos de lideranças, parcerias com organizações e movimentos sociais afins ou com órgãos públicos e privados, apoio cultural e geração de renda própria. Em dois casos há dependência da publicidade comercial (um alto-falante e uma webradio).
Num segundo momento aparecem outras percepções de sustentabilidade como, por exemplo, a de que ela não pode se resumir ao econômico, mas, ao contrário, deve englobar os lados social, ético, política e ambiental. Porém, essa percepção mais ampla só foi explicitada durante os debates por lideranças mais experientes e compromissadas com a transformação social.
A sustentabilidade ambiental foi destacada quando foi dito que os alto-falantes não são colocados próximos às casas, que não miram as residências e que são ligados em horários que não perturbam o sono, além de obedecerem ao limite de decibéis estabelecido pela legislação local.
A sustentabilidade política apareceu quando se explicitou a intenção de influenciar nos rumos da cidade, na formação adequada de crianças, adolescentes e jovens. Tornou-se evidente ainda quando se destacou o poder do rádio FM, do alto-falante, da webradio, do jornal, home-page, blogs e de outros meios de comunicação para o processo de transformação social e para a criação de condições dignas de vida à coletividade.
No sentido ético, quando se colocam os interesses coletivos como molas propulsoras das ações, além da negação unânime da prática da troca de favores por dinheiro.
Voltando à questão da sustentabilidade econômica, e sua interface com o sentido ético, chegou-se a explicitar a necessidade de não se ter o foco exclusivamente no econômico para não atrapalhar o direcionamento da qualidade do trabalho desenvolvido. Falou-se também na busca da auto-sustentabilidade ou na geração de renda própria, pois “projeto é bom, mas acaba”. Por fim, percebeu-se também a intenção em ter recursos para remunerar as pessoas mais diretamente envolvidas, nem que seja com ajuda de custo, diante do quadro de pobreza e desigualdade do país.
Enfim, ficou claro que as rádios comunitárias buscam a coerência entre estratégias de sobrevivência, compromisso social, estratégia política e intervenção prática.
No conjunto pode-se dizer que a sustentabilidade almejada pelas rádios comunitárias representadas no Onda Cidadã 2007 é a social, em outras palavras, a do ser humano em seu habitat. É a sustentabilidade da nação brasileira, começando pela cidade onde vivemos. É a sustentabilidade da vida em sociedade. É em decorrência do trabalho realizado, e antes mencionado, que infere-se tal observação. Trata-se de um trabalho educativo com crianças, adolescentes, jovens e adultos, visando formar cidadãos conscientes, respeitosos da diversidade étnica e da opção sexual, além de buscar a justiça social, a igualdade econômica e o combate aos meios que levam à violência e ao desrespeito à “coisa” pública. Um trabalho que procura ajudar o crescimento da pessoa enquanto cidadã que eleva sua auto-estima e se prepara para a inserção no mercado de trabalho.

Existir para sonhar e transformar

Para Amarildo Carnicel, professor da PUC-Campinas e do Centro de Memória da Unicamp, o verbo resistir, nos dias de hoje, poderia ser substituído pelos verbos “sonhar” e “transformar”.
Amarildo Carnicel (Unicamp/ PUC-Campinas)

Este texto foi produzido como análise do Forum Onda Cidadã 2007 – Grupo Mídias Impressas – no Circo Voador, RJ.

‘Existir para resistir’. Num passado não muito distante, esta expressão moveu muitos ideais e projetos que eram pensados, alimentados e materializados clandestinamente. Esses projetos, quando conseguiam driblar a censura, ganhavam as ruas e conquistavam alguns segmentos da sociedade. Materializavam-se em forma de jornais alternativos que se contrapunham às formas dominantes de informação e manifestavam o desejo de ver uma sociedade mais justa e menos reprimida. Com o fim da ditadura e o início da liberdade de expressão, deixa de ter sentido a existência dessa mídia de oposição política produzida às escondidas. Entretanto, a mídia alternativa continua existindo, com novo formato, com novos contornos. Na expressão que abre este artigo, o verbo ‘resistir’, nos dias de hoje, pode ser trocado por ‘sonhar’, ‘dar visibilidade’, enfim, ‘transformar’.
É o que verificamos no evento promovido pelo Instituto Itaú Cultural intitulado “Onda Cidadã 2007 – Sustentabilidade das Mídias Autônomas”, realizado em setembro no Circo Voador, no Rio de Janeiro. Na oportunidade, no Fórum Mídia Impressa, foram apresentadas sete experiências que estão sendo realizadas em diferentes partes do país: as revistas Azougue e Ocas, o fanzine Infarte, os jornais Rascunho, Tarja Preta e Boca de Rua, além dos livros publicados pela Associação Nossa Tribo. São publicações que proporcionam uma mostra da riqueza do material que vem sendo produzido por meio de iniciativas de instituições do Terceiro Setor. Há produções relativamente caras, em quatro cores, papel de qualidade e boa tiragem como os livros da Nossa Tribo, a revista Azougue e o jornal Rascunho. Há, também, produções baratas, em preto e branco, baixa tiragem – algumas feitas artesanalmente – como o fanzine Infarte e o jornal Tarja Preta. Independentemente da forma de apresentação gráfica, o que se verifica, principalmente, no aspecto editorial é que esses veículos se caracterizam por produções pensadas, com objetivos traçados e propostas definidas.

Antes de uma análise da iniciativa do Instituto Itaú Cultural e de elencar as propostas feitas pelos participantes do evento, convém fazer uma breve apresentação das publicações no Fórum de Mídia Impressa, buscando contar um pouco da história, das dificuldades e da importância do veículo, seja junto ao público leitor a que se destina, seja do ponto de vista de quem o produz.

Revista Azougue
A Revista Azougue é uma publicação essencialmente de poesia. Surge na USP em 1994 em forma de fanzine, com apenas oito páginas, impressão em fotocópia e 300 exemplares. “Nossa proposta editorial sempre foi apresentar autores esquecidos, fora de catálogos de editoras. Ou a gente apresentava esses autores às novas gerações, ou elas não teriam acesso a eles”, afirmou o editor da publicação e poeta Sérgio Cohn. Com auxílio de voluntários e meios paralelos de obtenção de recursos (festas, shows etc.) a publicação começa a tomar corpo e no ano seguinte deixa de ser produzida artesanal e rudimentarmente (modo que caracteriza publicações em formato de fanzine) para se apresentar em forma de revista, com 48 páginas (off-set) e tiragem de 1.000 exemplares. Em 2007, com apoio da Lei de Incentivo à Cultura, a Azougue publicou duas edições, com tiragem de 2.500 exemplares. “Ou submeteríamos projetos a editais lançados pelo Governo Federal, ou estaríamos fadados ao desaparecimento. As pessoas não lêem mais cadernos de cultura”, lamenta Cohn. Apesar das dificuldades, o editor aposta em projeto ainda mais ousado: unir em uma única revista, a Mergulhador, cinco revistas deficitárias que atuam nas áreas de poesia, literatura, cinema, teatro, artes plásticas, antropologia e cultura. Com proposta de circular com 30 mil exemplares, seria um misto de consórcio e cooperativa. “Uma tentativa de ‘unidos venceremos’”, aposta o editor.
Nossa Tribo
A Associação Nossa Tribo surge de modo inusitado. Em 2003 a fotógrafa Rosa Gauditano, a partir de trabalho jornalístico realizado em Tribo Xavante, no Mato Grosso, recebe o convite para documentar os costumes e rituais daquele povo instalado na reserva Pimentel Barbosa. “Os índios são conscientes de que sua cultura vem se perdendo em meio à modernidade”, afirma a fotógrafa. “Durante os trabalhos, presenciei a morte de um indiozinho. Foi o suficiente para perceber que minha missão ali não era apenas documentar costumes e rituais que estavam se perdendo. Tinha que fazer algo mais por aquela comunidade”. Com recursos da Associação dos Xavante de Pimentel Barbosa, Gauditano produziu o livro Raízes do Povo Xavante – Tradição e Rituais (3.000 exemplares). Percebeu, também, que os índios deveriam se organizar, se fortalecer para fazer valer seus direitos. Fundou a Associação Nossa Tribo e iniciou um trabalho de busca de recursos (obteve patrocínio e apoio institucional da Caixa Econômica Federal, da Prefeitura de São Paulo, entre outros). Já foram produzidos três títulos da coleção “Nossa Tribo” que somam 14 mil exemplares. São trabalhos que documentam por meio de fotos, ilustrações e textos (alguns, além do português, se apresentam na língua Xavante e Guarani) o cotidiano de tribos no Mato Grosso e em São Paulo. Também foi produzido o livro Aldeias Guarani Mbya na Cidade de São Paulo e o vídeo Darini que mostra um ritual de iniciação que ocorre a cada 15 anos em aldeias Xavante. Segundo Gauditano, metade dos recursos obtidos com as venda dessas publicações é repassada às aldeias. “Somente com parcerias conseguimos realizar os projetos e, dessa maneira, preservar e difundir essa cultura. Mas buscar essas parcerias está cada vez mais difícil. Não é nada fácil transpor os muros da burocracia”, avalia Rosa Gauditano.
Infarte
O avanço tecnológico, aliado ao barateamento do processo de impressão, vem promovendo a extinção – ou a descaracterização – dos fanzines. Entretanto, há publicações que por falta de recursos ou por romantismo procuram permanecer fiéis ao processo rudimentar e amador de produção. Entre esses veículos está o Infarte, fanzine publicado pela ONG Instituto Pombas Urbanas, de São Paulo. Com a proposta de ‘provocar um colapso nas artérias dos brutos’, o Infarte surge em 2005 como uma brincadeira, em Tiradentes, um bairro dormitório com 300 mil habitantes na capital paulista. O trabalho é feito por seis jovens do grupo de teatro vinculado à ONG e tem como pauta assuntos que fazem o dia a dia dos moradores do bairro como esportes, sexualidade, droga, habitação, além de temas que dão visibilidade às diversas oficinas organizadas pelo instituto. “Música, teatro, artesanato, circo, dança, pintura e grafite são assuntos normalmente estampados nas páginas do Infarte”, diz o webdesigner e fundador da ONG, Diego Rojas. Com tiragem de 1.000 exemplares (a publicação está em sua nona edição), o Infarte não tem pontos fixos de distribuição, tampouco periodicidade definida. “A distribuição é aleatória. À medida que vamos realizando e promovendo nossos eventos, aproveitamos para fazer a distribuição. O importante é que o produto é entregue de mão em mão e notamos, nesse contato, que o leitor se identifica com a publicação”, afirma Rojas. Para sobreviver, ele afirma que a ONG está sempre em busca de parcerias com órgãos públicos e setor privado, além de contar com o apoio de voluntários. “Somos 19 pessoas que recebem ajuda de custo de R$ 400,00 por mês”. Rojas ressalta que o trabalho só tem continuidade pelo empenho, pela paixão e pelo desejo de liberdade de seus integrantes.
Jornal Tarja Preta
Fazer da desgraça um momento de alegria. É dessa maneira que os editores do jornal Tarja Preta procuram passar sua mensagem. Auto-rotulados como ‘Editores irresponsáveis’, os colaboradores que fazem o jornal são pacientes e usuários da Oficina de Escrita do CAPS (Centro de Atenção Psicossocial Itapeva), localizado na região central da capital paulista. Segundo o artista multimídia e usuário do CAPS, Kayky Avraham, as reuniões de pauta são semanais e se caracterizam como “verdadeiros saraus”, com a participação de profissionais e pacientes de diferentes áreas. “Nas reuniões há muita discussão e pouca decisão porque há muita gente que manda. Só para ter uma idéia, a arte final fica em discussão dois meses”. Isso justifica, em termos, a falta de periodicidade. “O jornal sai quando dá”, afirma Kayky, que faz questão de ressaltar a postura imparcial do veículo, vendido em eventos e locais de grande circulação de pessoas ao preço de R$ 3,00. “Como não recebemos apoio de ninguém, fazemos um jornal radical que denuncia, por exemplo, a terceirização da saúde pelo Estado”. Mas o Tarja Preta, além do humor apurado na seção de horóscopo, abre aos usuários espaço para entrevistas, poesias, desenhos e fotos. “Todos os colaboradores são devidamente remunerados. São pessoas avessas ao convívio social. Preferem ficar quietas, produzindo no seu canto”, diz Kayky. O jornal, segundo seu representante, é a vida de muita gente. Há pessoas que não conseguem trabalhar e se encontram na Oficina de Escrita, onde se reconhecem e se expressam. “Quando vêem o jornal, os pacientes se emocionam, vibram com o resultado. É melhor que qualquer remédio, alguns usuários reduzem significativamente a dosagem de medicamento quando o jornal circula”, garante Kayky.
Rascunho
De todas as experiências apresentadas no Fórum Mídia Impressa, o jornal literário Rascunho é que se afigura com melhor estrutura empresarial. “Tenho que fazer algo profissional, caso contrário não sobrevivo”, afirma o jornalista e fundador do Rascunho Rogério Pereira. O veículo surge em abril de 2000, em Curitiba, como um encarte do Jornal do Estado. Assim permaneceu até 2004 quando a empresa paranaense se deu conta de que o custo da impressão (naquele momento com 32 páginas) era alto e abortasse o projeto. A partir daquele momento, não havia escolha: profissionalizar (leia-se tornar viável comercialmente) seria a única alternativa caso seu fundador insistisse na manutenção do veículo. Os quatro anos do Rascunho como encarte de um grande jornal foram suficientes para a conquista de grandes anunciantes como empresas estatais, privadas e universidades. “Abri mão de cargos de chefia e, conseqüentemente, de altos salários, e apostei naquilo que me dá prazer”, afirma Rogério. Mensal, com tiragem de 5.000 exemplares e 32 páginas, o jornal tem um custo de aproximadamente R$ 10 mil por mês. “Isso porque não pago os colaboradores”, afirma o editor – são cerca de 50 escritores de diferentes partes do país que colaboram sistematicamente para a produção do jornal. Paralelamente, o Rascunho promove uma vez por mês o ‘Paiol Literário’, um evento que leva a Curitiba um escritor brasileiro. O jornal recebe mensalmente das editoras brasileiras cerca de 100 livros, o que possibilitou a formação de um acervo pessoal com aproximadamente 8.000 títulos. “Pretendo criar uma biblioteca comunitária”, afirma o jornalista. Segundo Rogério, o Rascunho é a materialização de um sonho, a busca de um ideal, o pagamento de uma dívida: “Venho de uma família de pais semi-analfabetos. De um total de cerca de 300 pessoas da família, sou o único que tem curso superior. O jornal me permite resgatar uma dívida com os livros, com a leitura. É uma maneira de compensação”, afirma.
Revista Ocas
‘Saindo das ruas’. É com esse slogan que a Revista Ocas – publicação da Organização Civil de Ação Social (OCAS) – procura desenvolver um trabalho de reintegração social a moradores de rua. O veículo surge em 2002 como uma proposta inédita no país: proporcionar a moradores de rua de São Paulo e do Rio de Janeiro (cadastrados na OCAS) a oportunidade de trabalhar e gerar recursos por meio da venda de exemplares da revista. O trabalho funciona da seguinte maneira: o morador de rua é cadastrado e recebe gratuitamente 20 exemplares da revista que serão vendidos por R$ 3,00. Com o valor arrecadado, ele deve voltar e comprar mais exemplares ao preço de R$ 1,00 que serão revendidos por R$ 3,00. “Partimos do princípio de que o vendedor cadastrado fará a sua parte”, afirma o jornalista voluntário Gabriel Menezes, lembrando que há 30 vendedores em São Paulo e 10 no Rio de Janeiro. “Percebemos que o trabalho tem bom resultado, porém lento e gradual. O vendedor melhora a auto-estima, sente-se mais seguro, mais respeitado, mais ouvido. Ele passa a se preocupar com a aparência”, afirma o jornalista. Com 30 páginas, Ocas apresenta conteúdo sociocultural (reportagens, entrevistas, artigos, ilustrações e ensaios fotográficos) e tem como principais pontos de venda eventos culturais (portas de teatro, cinema, museus etc.) e universitários como congressos e seminários. Desde 2003 envolvido no projeto, Gabriel Menezes afirma que a maior dificuldade é buscar recursos para a produção da revista. Embora tenha alguns patrocinadores e seja totalmente elaborada por voluntários (textos, fotos, ilustrações, edição e editoração) a revista passa por dificuldades. No início do projeto quando recebia recursos da Embaixada Britânica, a publicação era mensal. Com tiragem de 8.000 exemplares, atualmente, a revista circula a cada dois meses.
Jornal Boca de Rua
Outra iniciativa apresentada no Circo Voador que tem a rua como cenário é o jornal Boca de Rua, publicação elaborada pela Agência Livre para Informação, Cidadania e Educação (ALICE). O desconforto de um morador de rua que é abordado por um segurança ao entrar num shopping-center e uma cartinha feita por crianças de rua com sugestões ao futuro prefeito de Porto Alegre são exemplos de matérias contidas no Boca de Rua, um jornal totalmente produzido por esses cidadãos que a sociedade prefere torná-los invisíveis. Publicado a cada dois meses, 8 páginas e tiragem de 12 mil exemplares (já foram publicadas 40 edições desde o seu surgimento, há sete anos), o jornal tem linguagem bastante simples (afinal, os moradores de rua são os repórteres) e “mostra que a rua não tem apenas ratos, sujeira, violência. Há também alegria, fé, esperança… é isso que queremos mostrar com nossa publicação”, afirma a jornalista Susanne Buchweitz. Os exemplares são vendidos pelos moradores ao preço de R$ 1,00 e os recursos ficam integralmente com eles. “Não fazemos nenhum acompanhamento de como gastam o dinheiro. É um trabalho familiar e acreditamos que esses recursos sejam usados em benefício de todos”, diz Susanne. Mostra de que o trabalho é familiar é a criação da página ‘Boquinha’, espécie de suplemento infantil totalmente produzido pelas crianças. As reuniões de pauta são feitas semanalmente e envolve toda a equipe (30 moradores adultos e 15 crianças). “Eles têm autonomia para decidir o que será publicado na edição seguinte”, afirma a jornalista.

Concluindo
Conforme pudemos verificar, o Fórum realizado no Rio de Janeiro permitiu a exposição de produções cujo modo de sustentabilidade vai muito além das questões de cunho econômico. Os veículos se apresentam como instrumento de registro, de preservação e de divulgação de uma cultura (livros produzidos pela Associação Nossa Tribo); como instrumento de elevação da auto-estima (Tarja Preta); como instrumento de visibilidade e reconhecimento de talento (Azougue); como instrumento de expressão e de exposição de temas que fazem o cotidiano de uma comunidade (Infarte), como instrumento de inclusão ou de reintegração social (Ocas); como instrumento de expressão de um ideal, de um sonho (Rascunho), e, finalmente, como instrumento que permite tornar visível o invisível, de refletir o dia a dia de pessoas marginalizadas pela sociedade (Boca de Rua).
As instituições participantes querem identificar quais são os caminhos para a sustentabilidade. Sugerem a realização de encontros em que setores do governo, da iniciativa privada e do Terceiro Setor sentem-se à mesa para discutir quais são os limites do ‘fazer’ e do ‘obter benefícios’ a partir de proposta e projetos de responsabilidade social. Querem estabelecer critérios que definam o termo responsabilidade social para que não haja uma mercantilização do social. Querem estabelecer princípios éticos que mostrem os limites de apoios financeiros sem que se curvem diante das exigências do patrocinador. “Quais os limites desse apoio para que não haja ingerência?”, indagam-se. Sugerem a criação de uma rede em que possam ser trocadas informações que dêem suporte, sustentação, para realização de ações e superação de problemas, muitas vezes simples e que podem parecer intransponíveis. Propõem a criação de um portal, uma espécie de balcão de projetos, em que as empresas pudessem acessar e, de alguma maneira, estabelecer parcerias, não apenas apoiando com recursos financeiros, mas, sobretudo, acreditando na proposta de transformação social.
O evento, conforme pudemos constatar, foi marcado pela diversidade de idéias, de origens e de produtos que proporcionam visibilidade aos atores sociais envolvidos. Cada qual dentro de uma realidade, com uma história de vida, de luta, de dificuldades e de conquistas. Entretanto, essa diversidade converge para algo comum que se manifesta em forma de desejos, aspirações, sonhos. É o que se verificou no encontro geral do Fórum, realizado ao final das atividades, quando os representantes das diferentes mídias tiveram espaço para debates, exposição de idéias e troca de experiências. De maneira geral, a iniciativa do Instituto Itaú Cultural de reunir as instituições e dar voz aos seus representantes foi muito bem recebida. Levou para o centro do debate assuntos que até então estavam à margem das discussões; temas tratados com preconceito, e porque não, com descaso pela sociedade dominante. Por momentos, aqueles atores não sofriam do mal que vem assolando essa parcela marginalizada da sociedade: o trauma da invisibilidade humana.
De maneira geral, esses atores sociais esperam que essa iniciativa do Itaú Cultural tenha continuidade. Acreditam que a proposta, por meio dessa radiografia inicial da produção de mídia autônoma, evolua, ganhe corpo, visibilidade e, a partir daí, sensibilize os setores do governo e da iniciativa privada no sentido de transformar o Brasil em um país mais justo, humano e menos desigual. O que mais desejam é continuar existindo – para sonhar e transformar.

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