O Acre no mapa

Blog do Altino Machado está aí para mostrar que não é só pela grande imprensa que circulam as notícias. E que muita coisa acontece na região Norte do Brasil, principalmente naquele estado na pontinha oeste do país, o Acre, que ocupa menos de 2% do território nacional e, talvez, uma porcentagem ainda menor das páginas dos jornais.

Mapeado pelo programa Onda Cidadã, o jornalista Altino Machado recoloca o Acre no mapa do Brasil. Pela sua página na internet, o ex-repórter dos jornais O Estado de S. Paulo, Jornal do Brasil e Folha de S.Paulo comenta questões ligadas ao cotidiano do estado: de “Calafate City” – gangue de um dos mais violentos bairros de Rio Branco – ao “ônibus” escolar que mais parece um pau de arara; dos buracos nas ruas da capital à escola pública que suspendeu as aulas por falta de água potável

Além do olhar atento ao dia a dia do estado, o blog ainda apresenta uma boa parte da história do Acre. Em uma série de posts, por exemplo, Machado fala sobre o gado que era transportado – de avião! – de Minas Gerais a Rio Branco (foto) ou sobre o quartel de polícia de Penápolis, atual Rio Branco, em 1912, entre – muitas – outras coisas.

Assista à entrevista realizada com o repórter para o programa Jogo de Ideias.

Do Alemão para o mundo!

Jovens repórteres do jornal e blog Voz das Comunidades – que espalha pela internet o cotidiano do Complexo do Alemão, Rio de Janeiro –, Renê Silva e Daiene Mendes estiveram em Nova York, onde visitaram a escola de jornalismo da Universidade de Columbia e conheceram as ruas do Harlem.

Os jornalistas ainda entraram em contato com a ONG local The Brotherhood/Sister Sol – que, em janeiro, enviou dois de seus membros, Marsha Jean-Charles e Nicholas Peart, para o conjunto de favelas carioca.

A experiência – promovida pelo Consulado Geral dos Estados Unidos no Rio de Janeiro – foi comentada em matéria do Bom Dia Brasil, da Rede Globo.

Fundador do Voz das Comunidades, Renê foi uma das principais fontes de informações durante a ocupação da polícia no Complexo do Alemão, em 2010. Na época, o jovem – então com 17 anos de idade – e outros dois colegas fizeram uma cobertura em tempo real, pelo Twitter, sobre o cerco e a invasão.

Criolo pra ver e ouvir

“Estar num palco, declamar uma poesia, falar dos seus sentimentos são coisas muito brutas, ações violentas – sobretudo para aqueles que não nos enxergam como gente.”

Essas foram algumas das palavras que o rapper Criolo lançou, em alto e bom som, na estreia do Encontros Poéticos – programa no qual o poeta Sérgio Vaz conversa com artistas de diferentes áreas. A primeira edição, que foi ao ar no dia 19, teve como convidado o rapper Criolo, que apresentou canções, leu poemas e falou sobre a sua vida e o seu trabalho. Se você perdeu a transmissão ao vivo, não tem problema: basta conferir o registro na web-rádio do Itaú Cultural.

Autor dos álbuns Ainda Há Tempo (2006) e Nó na Orelha (2011), Criolo lembrou sua infância na zona sul de São Paulo e disse que foi sua mãe – a poeta e filósofa Maria Vilani – quem lhe ofereceu seus primeiros contatos com a literatura. E foi questão de (pouco) tempo para que o cantor e compositor descobrisse o poder transformador da arte: com o rap, diz o músico, ele enfim pôde “se sentir alguém”.

Além de apresentar versos feitos justamente para o programa, o artista ainda comentou os prazeres e as dores do processo criativo – algo semelhante a estar com sede num mundo sem água –, ressaltou a importância dos saraus e outros movimentos culturais que vêm surgindo na periferia – a “primavera periférica”, nas palavras de Vaz, fundador do famoso Sarau da Cooperifa – e falou sobre a sua atuação no campo da educação – ou sobre a época em que “esteve” professor.

O próximo Encontros Poéticos vai ao ar no dia 23 de abril, das 20h às 21h, e conta com a participação de Fernando Anitelli, criador da trupe O Teatro Mágico. O programa pode ser conferido na sede do Itaú Cultural, em São Paulo, e pelo site do instituto.

O Rio de Machado

Acaba de ser lançado pela Nau Editora o livro Cada Dia Meu Pensamento É Diferente, que reúne fotos e textos que jovens moradores do Complexo da Maré, zona norte do Rio de Janeiro, fizeram com base em contos de Machado de Assis.

A ideia de partir de uma obra literária para registrar a cidade – no caso, a capital fluminense – veio do projeto Mão na Lata, parceria da fotógrafa Tatiana Altberg com a organização Redes de Desenvolvimento da Maré. Todas as imagens foram realizadas por meio de câmeras artesanais.

Vale lembrar que esta não é a primeira vez que o Mão na Lata aproxima o campo da fotografia ao da literatura. Em 2006, o projeto levou os jovens da Maré a Salvador – e ao universo do carismático beberrão criado por Jorge Amado para o romance A Morte e a Morte de Quincas Berro Dágua, de 1959. A iniciativa também resultou num livro: Mão na Lata e Berro Dágua (Nova Fronteira, 2006).

Formação Livre e em Fluxo

A mutação vai acontecer quando a formação deixar de ser feita nos moldes acadêmicos. #culturahacker

Ivana Bentes

Qual o lugar da educação e da formação numa sociedade em que os dispositivos tecnológicos de criação, produção, difusão são atravessados por uma forte dinâmica colaborativa, livre, aberta e baseada em ação direta? E que coloca em xeque os intermediários clássicos: escola, universidade, professores e os certificadores dos saberes?

Na passagem do capitalismo fordista para o pós-fordista (imaterial, cognitivo, comunicacional), os processos de produção cultural exigem novos modelos de produção do conhecimento, experiências de formação livre, vivências, vidas-linguagens que explodem a “fábrica”. O novo ciclo de produção na música, no audiovisual, o midialivrismo, crise das gravadoras, editoras, a crise dos intermediários e atravessadores, a crise do pensamento copyright exige uma nova deriva formativa.

É que a fábrica/Matrix se desregulou, a divisão de saberes e disciplinas estanques que refletia o modelo industrial do século XIX, a linha de montagem com setores isolados e independentes um do outro, se tornou obsoleta, mas ainda atuante: fabricação pela disciplina ou pelo controle de “corpos dóceis”.

Vistas como espaços de “encarceramento” (sejam reais ou virtuais) e de poder sobre a vida, é difícil não posicionar a Escola tradicional no mesmo paradigma disciplinar que regia fábricas-hospitais-prisões (como apontou Michel Foucault) ou no mesmo modelo de controle da vida, assujeitamento dos corpos e produção de desejos, que caracterizam o “biopoder” (poder sobre a vida).

Vida-trabalho-formação-expressão

A questão contemporânea é que toda a sociedade se tornou formativa. A cidade e as redes são o próprio ambiente cognitivo (a cidade é a nova “fábrica’ como diz Antonio Negri). O tempo do trabalho se confunde com o tempo da vida (não mais o trabalho morto automatizado, mas o trabalho-vivo, a vida-trabalho). Nesse contexto a Escola não deveria mais formar para a vida, a Escola torna-se a própria vida, se confunde com ela.

É por isso que vemos uma explosão de iniciativas de educação não-formal, escolas livres, universidades livres e uma demanda por formação nos Pontos de Cultura e Pontos de Mídia, tendo como base a autonomia e liberdade como dois princípios para uma revolução/mutação em fluxo, que já está em andamento.

O desafio é como dar visibilidade e reconhecer esse potencial formador e responder a demanda por formação dos coletivos, comunidades, diferentes tipos de organizações com suas dinâmicas e processos próprios. Experimentar e sistematizar as novas formas de visibilidade, partilha e certificações dos saberes.

No encontro do Onda Cidadã de 2012 o tema da formação a partir das práticas e experiências do Pontos de Mídia surge tanto como demanda de reconhecimento das metodologias desenvolvidas e utilizadas quanto desejo de potencialização.

Os próprios participantes demandam um maior domínio técnico de ferramentas, mas igualmente uma formação intelectual e universitária ou ainda uma grande preocupação com a gestão (de recursos, pessoas, capital simbólico), o que está diretamente ligado a potencialização experimentação e consolidação de diferentes formas de organização e capacidade de atuação e intervenção.

É o que aparece no resultado da pesquisa apresentada pelo Onda Cidadã:

“Em termos gerais, a demanda por formação se caracteriza pela busca do aperfeiçoamento técnico em cursos profissinalizantes (20%), pela busca de mais conhecimento em gestão (36%) e na adoção de políticas de formação intelectual formal (sobretudo universitária – 15%)”.

Ou seja, por um lado os Pontos de Mídia estão criando dinâmicas e metodologias próprias, vivências, imersões, observatórios, formação pela mídia (midialivrismo) e pelas redes sociais e simultaneamente demandam uma participação e partilha dos saberes institucionalizados, que agregam valor.

É importante destacar como os processos de midiatização e as práticas midiativistas já são formativas e se constituem simultaneamente como documentação e material didático (vídeo, fotos, textos, auto-documentação, diários, relatos, relatório, documentários, making-offs, tutoriais) e se tornam decisivos não apenas a dinâmica de produção, acesso e circulação de conhecimento, mas na auto-formação do Pontos de Mídia e coletivos.

O que poderia ser uma formação P2P (ponto a ponto) ou uma “peerdagogia”? Como os Pontos de Mídia são ou podem ser Pontos de Formação? O caráter distribuído remete-se a uma re-conceituação política: os usuários ocupam os mesmos papéis sociais porque detêm igualmente todos os recursos que as redes oferecem.

O “educador” deixa de ter um “privilégio” ou “reserva de Mercado” e vê o seu papel compartilhado pela mídia, redes sociais, educação não-formal, apontando para a constituição de uma inteligência coletiva em rede.

Na prática, os processos peer-to-peer da internet e seus dispositivos tem o potencial de criar um espaço de trabalho colaborativo e participativo, rompendo assim a hierarquização e a unidirecionalidade da aprendizagem, fomentando um processo de conectividade irrestrita em rede, exigindo dos educadores preparação para inserção crítica nesse universo das práticas de conexão mútua na internet que criam um “ponto de mutação” em relação as práticas tradicionais.

Os Pontos de Mídia podem ser reconhecidos e emponderados para se tornarem Pontos de Formação, mas para isso precisam de infra-estrutura instalada (sede, banda larga, ferramentas) ou bancos de dados e acesso aberto em nuvem e acessíveis via mídias móveis, que é a base da livre produção de capital simbólico, disputa de narrativas, produção de valor.

Mas qual o capital dos Pontos? Um dos resultados da Pesquisa do Onda Cidadã com os Pontos de Mídia aponta as parcerias como um dos maiores ativos dos coletivos. Quem tem redes de parceiros, participantes com tempo livre e potencial de trabalho colaborativo e formativo é mais sustentável, pois pode constituir uma “moeda” própria, bancos de tempo e de serviços, gerar riqueza e valor redistribuídos para o Comum e para a própria sustentabilidade.

Essa é a o que podemos chamar de “economia da vida”. No Brasil, como em diferentes países, explodem as experiências de Bancos de Tempo e Moedas Sociais que podem criar, fazer circular e redistribuir ativos em territórios e redes.

Multicertificação: poder distribuído

É nesse contexto que foi apresentando também a proposta de constituição da Universidade da Cultura Livre (Unicult), propondo mapear processos e iniciativas de formação na área cultural no Brasil. O objetivo do mapeamento é articular os grupos que querem contribuir com a implantação de um projeto experimental em formação.

A Universidade Cultura Livre se propõe como “um consórcio de instituições multilaterais — integrando universidades, coletivos, órgãos governamentais, pontos de cultura, instituições de formação e entidades da sociedade civil — orientado ao desenvolvimento de programas de formação continuada na área cultural em todo o Brasil. Com objetivo de promover a formação continuada dos diversos operadores da cultura a partir da integração de iniciativas de capacitação, na perspectiva de educar através da Cultura, para a Cultura”.

Trata-se de uma iniciativa de mapeamento e visibilidade de ações de inovação no processo de ensino-aprendizagem que leve em consideração a dimensão colaborativa, multimídia, recombinante (cultura do remix) e em redes que atravessa a sociabilidade atual. Educação e formação pelas mídias e também para as mídias que apontem para um uso crítico, estético e político dessas ferramentas.

São muitas as experiências em curso: midialivristas, pedagogia Griô, pedagogia quilombola, processos de apropriação das tecnologias pelas culturas populares e tradicionais (indígenas, ribeirinhos, caboclos, etc.), produção cultural e de conhecimentos vindas das periferias brasileiras, apontando para a emergência de uma cultura popular digital. Parte dessa mutação mais ampla em que a cultura se torna central na produção do conhecimento e na constituição de uma nova economia.

Processos de formação resultados dos fazeres e práticas nos mais diferentes campos: audiovisual, teatro, música, dança, multimídia, conectando e tornando indissociáveis a vida e trabalho desses agentes formadores.

Efervescência e diversidade que podemos encontrar em um programa como o Cultura Viva do MinC que se propôs a pensar de forma pioneira e como política pública esses novos arranjos: cultura viva, economia viva, dando visibilidade, conceituando e apontando para o potencial inovador desses processos.

Circuito Cultural e Movimento Social

Nesse sentido destacamos ainda as experiências formativas do Circuito Fora do Eixo que criou a sua própria Universidade Fora do Eixo (UniFdE) propondo compartilhar e sistematizar suas metodologias de formação (cartilhas, colunas que rodam territorialmente por todo o país, imersões, vivências, observatórios, oficinas, wikis, Pós-TV).

Com uma forte experiência midialivrista e midiativista, o Fora do Eixo é uma das referências em relação aos modos de transformar a precariedade, a fragmentação e atomização dos coletivos, em um circuito integrado e descentralizado, que tem como base de sustentação uma cultura e economia em rede distribuída.

Trata-se de uma proposta singular e bem sucedida de simultaneidade dos processos de realização, experimentacão, formação, em que todas as ações do circuito se tornam metodologias potenciais de formação livre, a serem replicadas e compartilhadas e que lança mão de diferentes estratégias de sustentabilidade, tendo como base, os ativos do próprio circuito (tempo livre, força de trabalho, domínio das linguagens midiáticas e narrativas multimídias).

Ao fomentar e organizar circuitos territoriais e virtuais (de música, audiovisual, palco, letras, mídias, redes de formação política), ao criar experiências de vidas compartilhadas e espaços de convivência comunitárias (com caixas coletivos e um novo comunitarismo), ao criar moedas e bancos de tempo, economia viva, a experiência Fora do Eixo transborda as fronteiras vida/educação, vida/trabalho, numa deriva experimental em que tudo é “laboratório”, tudo é formação. O processo formativo, seu mapeamento e sistematização não “prepara” para a vida, é a própria vida se experimentando e potencializando.

Podemos mencionar ainda as experiências midialivristas (de formação pela mídia e para as mídias) que inovam ao simplesmente desconfiguram os espaços tradicionais de fala: a Escola Popular de Comunicação Critica da Maré (ESPOCC), a Escola de Hip Hop do movimento Enraizados, no Rio de Janeiro, a Agência Redes para a Juventude, o projeto Cinema Nosso, e diferentes coletivos e movimentos que convertem a carência/falta/precariedade em potência, resignificando os territórios vulneráveis, a favela, as periferias, disputando narrativas e inventando suas próprias metodologias de formação.

O entendimento que a comunicação e a mídia deixaram de ser “ferramentas” e se tornaram a própria forma de organização dos movimentos culturais e sociais se expressa de forma transversal nos diferentes projetos e missões dos Pontos e coletivos e de forma mais explicita nos projetos de comunicação e midiativismo das propostas da Agência Pública, Coletivo Palafita, Jornalismo B, Voz da Comunidade.

Trata-se de mobilizar a todos diretamente em um processo intensivo e midiático de formação política que ativa e desloca os lugares de poder/saber. A formação política surge assim como horizonte e missão de muitos grupos e a demanda por um aprofundamento e continuidade nessa formação também é vocalizada nas propostas de diferentes coletivos: A Fábrica – Cultura Coletiva, Coletivo Verde, 3ecologias, Colméia Cultural, SOMOS, Raízes em Movimento, Descolando Ideias, etc.

A ideia que a produção de conhecimento deva ser livre e aberta, gratuita, (utilizando licenças flexíveis, Creative Commons, Recursos Educacionais Abertos/REA) é decisiva nesse novo paradigma. Nesse sentido políticas públicas como banda larga gratuita, o Marco Civil para a Internet ou a Reforma da Lei do Direito Autoral _ discriminalizando as práticas do compartilhamento de arquivos, cópias, exibições de filmes para uso educacional, cultural _ são a base da revolução dos “commons”, dos bens comuns partilháveis e da emergência de uma intelectualidade de massa.

Daí o estímulo decisivo a pesquisas em processo (work in progress) abertas na rede e utilizando linguagem Wiki, construção de repositórios públicos e gratuitos de dados e conteúdos, servidores públicos e plataformas, disseminação das webTVs, transmissão ao vivo de conteúdos audiovisuais os mais heterogêneos.

A Cultura Livre e Cultura Digital são outra plataforma transversal e condição para a sustentabilidade e potencialização do campo midialivrista e surge pontualmente ou como missão de diferentes grupos: Coletivo Digital, Iconoclassistas, 3ecologias.

Essas são também algumas das condições de uma wiki-escola ou wiki-universidade, Universidade p2p ou formação aberta, em que o processo de ensino-aprendizado e a produção dos conteúdos envolve em diferentes níveis todos os participantes e a própria formação dos educadores/formadores é baseada na produção de conteúdo para os ambientes colaborativos e ferramentas livres.

Para pensar essas diferentes derivas formativas é decisivo ainda uma documentação dos processos e metodologias diferenciais que permita criar um acúmulo de repertórios, textos, bancos de imagens, bancos de ideias, links que servirão de referência para as experiências de consolidação e multiplicação dessas práticas e metodologias e como referências para outros formadores, experimentadores.

Outro aspecto importante é a atenção para as linguagens, narrativas, que deixam de ser questões acessórias e junto com a apropriação tecnológica surge como campo de disputa e ação de muitos coletivos. Arte contemporânea, performance, ações politico-midiáticas que encaram a estética como indissociável de um campo de expressão e intervenção política, como ampliação de repertório e posse das diferentes linguagens da arte contemporânea, como aparece nas propostas de grupos como: Arteliteratura Caimbé, Coletivo 308, Coletivo Claraboia, Coletivo Palafita, Coletivo PIXXFLUXX, Coletivo SHN, Coletivo Trotamundos, etc.

Condições para uma Formação em Fluxo. Propostas e Ações

Entre as propostas discutidas podemos destacar a importância de dar visibilidade a formação como campo de atuação, expertise e sustentabilidade (serviços), com experiências que podem ser multiplicadas não só por outros coletivos, mas na política pública.

Outra questão recorrente é a possibilidade de articulação (criação) de plataformas, banco de dados, catálogos, inventários, de metodologias, processos, práticas formativas, rede de relações e serviços, partindo do que já está sendo feito e pode ser trocadas e compartilhados, ações de fortalecimento das redes de formação e auto-sistematização.

Muitas experiências jea estão sendo feitas, dai a importância de dar visibilidade e criar «trajetos de formação» e «percursos formativos».

Em relação as condições para uma formação aberta destacamos a necessidade de se apoiar a produção de Recursos Educacionais Abertos (REA) e estimular e viabilizar o licenciamento dos materiais didáticos, artísticos, expressivos, estéticos, com licenças de uso livre, não-comercial, cultural, educacional, etc.

Se as parcerias aparecem como uma “moeda” fundamental e como ativos decisivos na sustentabilidade seria preciso mapear infraestrutura instalada nos entornos dos projetos, para criar e potencializar parcerias e estimular arranjos e formas de organização em redes.

Destacamos ainda o vivo debate em torno da proposta de integração e parcerias dos grupos e coletivos com as politicas e projetos de Extensão das Universidades públicas, pensando no desafio que colocar de pé um sistema de multicertificação entre instituições de ensino formal e formação livre.

Durante os dois dias foram propostas por nós, de forma mais pontual, as seguintes ações, que constituem um Banco de Ideias em permanente reformulação e virtualização para todos que se dispõem a levar adiante o desafio de constituir uma rede distribuída de multinstituições, autônoma, de mídia livre e mesmo pensar o que poderia ser uma rede de Pontos de Formação. São propostas que tem como horizonte a constituição e fortalecimento de uma cultura de redes no Brasil.

Banco de Ideias (Ivana Bentes)

1. Criação de plataformas, bancos de dados, catálogos, de metodologias, processos, rede de relações e serviços.

2. Sistematização das metodologias, dinâmicas, atividades de formação de cada coletivo/grupo e pensar que ações de formação podem ser trocadas e compartilhadas.

3. Fomento para auto-sistematização, documentação e difusão de um banco de metodologias e dinâmicas (tutoriais, dinâmicas, métodos, práticas) em mídia livre/cultura digital/meio ambiente/cidades

4. Responder as demandas de formação dos próprios coletivos com apoio a formação e fomento no campo da gestão, desenvolvedores, produção audiovisual, design, cultura digital, etc. Responder a demanda de intercâmbio com a educação formal, através da extensão das Universidades, parcerias dos coletivos com as Universidades e certificação.

5. Consórcio de Certificação ou Auto-certificação ou Certificação colaborativa. Todos os coletivos e rede midialivrista e de cultura digital participam (juntos com as Universidades formais) da certificação de suas experiências de formação, cursos, oficinas, imersões

6. Articulação das atividades de formação/produção em um circuito, trajeto, percurso para imersões, encontros e atividades de trocas de experiências, ações e metodologias (ex. Circuito de Mídia Livre ou de formação em Cultura Digital de capitais e de cidades pequenas) que dê visibilidade a experiências de educação não formal

7. Utilizar/ Integrar a Agenda de Ações das redes e coletivos para funcionar como roteiro e oportunidade de parcerias e ações integradas e compartilhadas. Pois essa agenda das ações já são oportunidades de formação, trocas e parcerias.

8. Sustentabilidade. Prestação de serviços que revertam para o fortalecimento da missão/proposta/projeto dos coletivos/grupos. Mobilizar, contratar os coletivos como organizadores dos eventos, produtores de mídia, de streaming, gestores de redes sociais, etc.

9. Sustentabilidade. Apoio e fomento a gestão, estímulo as novas formas de economia colaborativa, moedas complementares, trocas de serviços, cooperativismo e associativismo. Banco de serviços.

10. Sustentabilidade. Infra-estrutura instalada nos coletivos. Ponto de internet banda larga, equipamentos, laboratórios,etc.

11. Sustentabilidade. Fomentar a aquisição de sedes próprias ou estimular o uso «associado» de um mesmo espaço por diferentes coletivos ou mapear espaços públicos que possam ser cedidos para uso temporário em parceria.

Ivana Bentes

Ivana Bentes é professora e pesquisadora do Programa de Pós-Graduação em Comunicação da UFRJ, diretora da Escola de Comunicação da UFRJ, coordenadora do Pontão de Cultura Digital da UFRJ, Laboratório Cultura Viva, e participa das redes Fórum de Mídia Livre e do projeto de fabulação e implantação de uma Universidade da Cultura Livre.

Jogo de Ideias: experiências do Bagunçaço

Joselito Crispim, ativista do Bagunçaço, localizado no bairro de Alagados, na capital baiana, fala sobre sua trajetória profissional, sobre as dificuldades encontradas e a trajetória do projeto social criado e coordenado por ele há 20 anos, o Bagunçaço. O episódio é a primeira parte do especial Onda Cidadã, um programa permanente do Itaú Cultural, criado em 2003 e que pensa as formas autônomas de comunicação e seu impacto social, cultural, educacional e econômico.

Entrevista para o programa Jogo de Ideias, gravado durante a realização do II Fórum Onda Cidadã, no Itaú Cultural, São Paulo/SP, em junho de 2011. Apresentação de Claudiney Ferreira.

 

Jogo de Ideias: comunicação autônoma

Na segunda parte do especial Onda Cidadã, um programa permanente do Itaú Cultural, criado em 2003 e que pensa as formas autônomas de comunicação e seu impacto social, cultural, educacional e econômico, Alexandre Pankararu fala sobre seu trabalho como criador da rede de inclusão digital, Índios Online e assessor de comunicação da Articulação dos Povos Indígenas do Nordeste, Minas Gerais e Espírito Santo (Apoime), importantes canais de acesso à informação dedicada a todas as tribos e interessados em geral; João Paulo Malerba fala sobre sua trajetória profissional como presidente da Associação Mundial das Rádios Comunitárias no Brasil (AMARC) e da paixão que move os comunicadores autônomos a fazer desses veículos alternativos um canal para difundir suas próprias histórias e suas percepções de mundo; e André Lobato (“Kaveira”), artista ambientalista multimídia, fala sobre a trajetória do projeto “Caravana Carbono Neutro”, iniciativa da ONG Apaverde, instalada na cidade de Belém do Pará, criada e coordenada por ele.

Entrevistas para o programa Jogo de Ideias, gravado durante a realização do II Fórum Onda Cidadã, no Itaú Cultural, São Paulo/SP, em junho de 2011. Apresentação de Claudiney Ferreira.

 

Jogo de Ideias: midialivrismo

Na terceira e última parte do especial Onda Cidadã, um programa permanente do Itaú Cultural, criado em 2003, que pensa as formas autônomas de comunicação e seu impacto social, cultural, educacional e econômico, Altino Machado, jornalista e blogueiro acreano, fala sobre sua formação profissional e sobre a importância dos blogs como ferramenta de comunicação, especialmente em regiões mais distantes dos grandes centros comerciais do país; Marco Amarelo, hacker e midialivrista no Paraná, fala de sua atuação no no movimento Soy Loco por Ti, um coletivo que produz comunicação alternativa para a América Latina; e Joanice Sampaio fala sobre sua trajetória profissional como jornalista e da rotina e dificuldades como blogueira na cidade de Fortaleza, no Ceará, onde mantêm o blog Papo Cult.

Entrevistas para o programa Jogo de Ideias, gravado durante a realização do II Fórum Onda Cidadã, no Itaú Cultural, São Paulo/SP, em junho de 2011. Apresentação de Claudiney Ferreira.

 

Relatório Forum Onda Cidadã 2012 – Beá Meira

Não se trata de um texto tradicional, mas de outra forma de ver e explicar as coisas. É assim o relatório da “observadora” do III Fórum Onda Cidadã, ocorrido nos dias 23 e 24 de agosto, na Sala vermelha, no Itaú Cultural, em São Paulo. Beá Meira é ilustradora e artista gráfica, coordenadora pedagógica da Universidade das Quebradas, projeto de extensão da UFRJ. Formada pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo, (USP – 1985), autora de livros didáticos e paradidáticos na área de artes. Logo mais publicaremos outro texto sobre o fórum, aquele produzido por Ivana Bentes.
Ainda sobre Beá Meira.
http://www.beameira.com e http://cadernosdabea.blogspot.com.br/

Mapeamento Onda Cidadã 2012

Mapeamento sobre Mídias e Cultura Livre no Brasil

Distribuição regional dos GIACs
Estados atingidos
Tipo de instituições
Tempo de vida dos GIACs
Status legal
Autonomia da sede
Sustentabilidade
Motivação Inicial para Produzir Mídia Livre
Mudanças de objetivos
Quantidade de profissionais
Área de Atuação
Metodologias de Trabalho
Demandas por Formação e Melhorias (geral)
Demandas Específicas por Formação e Melhorias (geral)
Tipos de veículos de mídia


De todas as instituições mapeadas pelo Onda Cidadã entre 2011 e 2012 56% localizam-se na Região Sudeste e as demais e estão divididas entre Norte, Nordeste e Sul.

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A pesquisa do Onda Cidadã atingiu 23 Estados brasileiros, além do Distrito Federal, ou seja, abrangeu todo o Brasil!

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As iniciativas de mídia livre mapeadas estão distribuídas por diversos tipos de instituição. Destaque-se a presença de midialivristas em ONGs e Grupos Culturais (coletivos).

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Expansão do midialivrismo no Brasil: 52% das instituições existem entre 1 e 5 anos.Ao expandir-se a amostra a porcentagem de GIACS consolidadas não chega a 50%. Somente 21% tem mais de 11 anos de existência e 22% entre 6 a 10 anos , somando 43% X 71% do resultado anterior, inverte as tendências, o que pode significar que: fenômeno do crescimentos das GAIACs (Grupos, Associações, Iniciativas Pessoais e Coletivos) ainda é intenso, a estabilidade econômica e a facilidade de acesso aos equipamentos eletrônicos corroboram com esta tendência.

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A pesquisa aponta a predominância de instituições formalizadas entre iniciativas midialivristas. Entretanto, cerca de 28% são informais ou não tem interesse de se formalizar.

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Mais da metade das iniciativas mapeadas possui sede alugada ou cedida e 20% possuem sede própria.

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A pesquisa demonstrou que há um leque maior de estratégias de sustentação financeira dessas iniciativas. E não há entre elas o predomínio de uma única fonte de recurso para financiamento das atividades. Mas, pelo gráfico, se percebe que a prestação de serviço é uma tendência entre midialivristas. Contudo, o que conta ainda é uma certa “se-virologia”: a maior parte do trabalho é autônomo, sem vínculos formais e contratos de trabalho definidos, com excecção do midialivrismo institucional, onde o trabalho é mais organizado, mas a autonomia de trabalho é menor, já que os temas de trabalho obedecem a diferenets agendas institucionais. O que há de novo – memso entre os precários – é a venda de produtos (modo de vida peculiar de se fazer uma notícia) como estratégia de ganho de renda, através de práticas como cobrança de mensalidades, prestação de serviços de assessoria/consultoria e realização de oficinas/palestras/coberturas. E isso demarca o fato de que o trabalho midialivrista é, ao mesmo tempo, uma atuação na produção de linguagens comunicacionais, mas, sobretudo, de conhecimento sobre o funcionamento de ferramentas, de construção de públicos e de produção de redes, para citar três habilidades típicas da geração que cria por conta própria (sem contrato de trabalho, o que é um grande problema), para além da cultura da doação e do patrocínio.

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Observa-se que as motivações iniciais são, em geral, respostas às demandas sociais das mais diversas como Enfrentamento de demandas sociais e culturais, 43%, ;Direitos Humanos e democracia 13%. Comunicação 12%. Melhorar área profissional somam 7%.

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Um indício que aponta a estabilidade dos GIACs é a declaração de quase 60% de não ter mudado seus objetivos iniciais. Isso é interessante porque, mesmo se a tendência de empresariamento dos midialivristas continuarem, o foco de sua atuaçãocontinua político. Nesse sentido, midialivristas são uma forma de empreendedores políticos.

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71% das mídias livres são produzidas por até 5 pessoas. Chama a atenção um fenômeno novo no país: os coletivos de mídia, um pequeno grupo, quando não uma única pessoa, que através de seu site, se conecta a um “cluster” temático para produzir informação e linguagem mais especializada.

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A atuação local predomina-se na abrangênca das atividades das mídias livres (46%). Essa relação com a localidade, permeada com a conectividade em rede, explica, em parte, a musculatura nacional que essas atividades passaram a ter. Isso porque com trabalho forte em nível local e conectadas em rede, o grau de interação sobre práticas e inovação nos territórios permite que coletivos, grupos e instituições possam reverberar sentidos e lutas comuns em todo o país.

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O trabalho de midialivristas não reproduz uma visão “midiacêntrica”, em que o transporte de informação é o principal objetivo da comunicação. Ao contrário, midialivristas atuam em diferentes campos: na formação, no desenvolvimento social, na mobilização social, na experimentação e desenvolvimento tecnológico. É um trabalho amplo que inventa o produto mídia, ao mesmo tempo, que cria processos midiáticos cada vez mais potentes.

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Em termos gerais, a demanda por formação se caracteriza pela busca do aperfeiçoamento técnico em cursos profissinalizantes (20%), pela busca de mais conhecimento em gestão (36%) e na adoção de políticas de formação intelectual formal (sobretudo universitária – 15%).

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Em termos específicos, a demanda por formação é bem diversa, tendo aperfeiçoamento em conhecimentos tecnológicos e na captação de recursos como focos principais.

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Um dados mais interessantes da pesquisa revela que a internet é o veículo mais utilizados pelos midialivristas: 68% das experiências de mídias independentes são realizações que ocorrem na web. Há uma dupla interpretação para esse fenômeno. Por um lado, a existência de serviços na web que permitem publicação automática de vídeos, textos, sons e fotos. Isso fez explodir o surgimento de sites e blogs independentes marcados pela especialização e pela boa qualidade profissional de conteúdo multimídia. De outro lado, a formidável criação de máquinas de compartilhamento de notícias, inauguradas pelas chamadas redes sociais, permitiu se dispor e monitorar melhor os públicos, agora, transformados em parceiros, seguidores ou amigos. Esse duplo fenômeno fez inaugurar novos modos de engajamento em torno da informação, novos modos de cálculo do alcance de uma notícia e a brutal partipação do públicos nos temas mais relevantes do espaço público midiático. Essa metamorfose no campo da publicação permitiu que mídias livres passassem a projetar na internet o seu locus mais genuíno de realização.

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Slides
Veja a apresentação, em slide, de todos os gráficos do Mapeamento Onda Cidadã das Mídias Livres 2012: