Integrante do Ciranda dá um panorama dos movimentos culturais de Belém
Vanessa Silva, integrante da Ciranda, plataforma de comunicação compartilhada, fala sobre sua experiência com o movimento social e oferece um panorama dos movimentos culturais em Belém. Vanessa também comenta sobre as mudanças que a Ciranda enfrentou em seus 10 anos de atuação. Confira a íntegra da entrevista.
Você notou de um tempo para cá mudanças na geração que está a frente das organizações? Se sim, você observa alguma mudança na atuação e na maneira de dialogar com a sociedade?
Percebo que a atuação na prática é mais jovem, mas a coordenação, a direção, ainda é a velha guarda. Essa renovação traz novas práticas, certamente, mas é importante a experiência acumulada pelas pessoas que há anos trabalham fazendo os movimentos.
Nós temos avançado bastante em termos de objetivos e nos trabalhos realizados. A Ciranda nos últimos 10 anos tem ampliado sua atuação. Temos um grupo de jovens que trabalha ativamente, fazendo articulação com pessoas de todas as regiões do Brasil. Recentemente, surgiram diversos novos núcleos da Ciranda, o que nos permite alcançarmos muito mais pessoas.
Com a Ciranda não é muito difícil. A articulação da Ciranda flui de maneira muito natural. A dificuldade é reunir todos presencialmente, já que quase não nos encontramos pessoalmente. O momento que a Ciranda tem para reunir os cirandeiros é, principalmente, nos eventos.
Observamos nos últimos anos uma valorização da cultura no Brasil, com o surgimento de diversos pontos de cultura, de novas leis de incentivo… é uma análise correta? Quais as carências ainda existentes em relação a apoio?
Teve uma abertura bem interessante. Tem muita gente que está podendo acessar esses incentivos, mas pelo menos em Belém, está muito repetitivo. Mesmo com toda abertura, com todo acesso, ainda é muito burocrático. O trato com essa burocracia é muito difícil para algumas organizações. É sempre muito complicado, essas prestações de conta, enfim…
Mas, sem dúvidas, principalmente para as organizações menores esses incentivos ajudam a fazer alguns trabalhos. Eu acho muito interessante ter esse incentivo.
Qual a influência desse novo contexto no movimento cultural em Belém?
Tem tido um surto de produções na região. Aqui temos uma diversidade muito grande de pessoas. Está acontecendo muita coisa por aqui. Trabalhando dentro de Instituto de Arte do Estado, percebo que existe um galera muito grande que está produzindo cultura aqui. Uma galera está publicando livro, fazendo teatro, cinema, espetáculo de dança.
Os últimos 10 anos, junto com o amadurecimento da Ciranda, vimos também o crescimento da Internet. Você acha que as organizações sabem utilizar isso a seu favor? Mudou a forma de comunicação com o público?
Não temos visibilidade na grande mídia, por isso, acionamos a mídia alternativa. Mas temos a impressão de que nossas ações não tem tanta amplitude, porque estamos nos comunicando entre a gente mesmo. Existe uma discussão muito grande em torno disso.
A Ciranda participa de eventos de comunicação, está articulada com outras organizações que também trabalham a comunicação. Tem gente que contribui com a Ciranda no Brasil inteiro e também estamos articulados com a galera de mídia livre. Fazemos oficinas em eventos e assim mobilizamos mais pessoas. Os núcleos não existem fisicamente, são núcleos virtuais. Os cirandeiros tem autonomia para escolher a editoria onde quer publicar.
Quando a gente veio para Belém, em 2009, fizemos oficinas e quem definia os temas delas eram os próprios alunos das oficinas. Durante o Fórum Social Mundial, que aconteceu em um bairro de periferia, a maioria das pessoas que trabalharam disseram que apesar de receberem um evento mundial não estavam se vendo. A maioria das pessoas do bairro não sabia nada sobre o evento. Então, fomos para a rua com equipamento de vídeo, texto, áudio, conversamos com as pessoas, para elas poderem falar o que quisessem sobre o assunto. Isso foi super produtivo. Não tínhamos um grupo de jornalistas. O que tínhamos eram moradores do bairro incomodados com uma situação, querendo falar. Além da produção, da cobertura do evento, participamos das discussões.
Agora a gente está na discussão do Marco Regulatório da Comunicação. Essas aberturas, que a população pode propor o que vai entrar nos marcos regulatórios, são super interessantes. Mas o meu ponto de vista é que ainda é muito excludente. Na região onde eu moro é complicadíssimo. Porque tem lugares aqui, a três horas de Belém, que não tem nem telefone. É um avanço? É um avanço. Mas ainda precisa mudar muita coisa. As pessoas aqui tem dificuldade de acesso, principalmente em relação à internet.
E com essas dificuldades, como vocês conseguem mobilizar novos atores e para organizar as atividades da Ciranda?
As oficinas são o melhor espaço para ampliar nossa atuação. Eu, por exemplo, participei de uma oficina da Ciranda, já virei cirandeira e fui publicando um monte de coisas. Do pessoal da Ciranda eu sou a mais nova. Tem gente em Minas Gerais, no Amapá, no Paraná, em Londres, é uma galera imensa que está publicando na Ciranda e vários deles entraram para a Ciranda fazendo contato nos eventos.
Para organizar a atuação, ano passado fizemos um encontrão da Ciranda e direcionamos as editorias. Dividimos os dias das publicações de cada um e criamos um ritmo de publicação que parece uma editoria de um grande jornal. Tem gente que publica de vez em quando, mas tem gente que é todo dia. Várias coisas acontecem no mundo e a Ciranda está sempre lá. Se não presencialmente, ao menos virtualmente.
Essa experiência acrescenta muito no meu trabalho em Belém, conheci muita coisa com a Ciranda, viajei para muitos lugares.
Nesse momento estamos na discussão do Fórum de Mídia Livre. Ficou definido que faremos esse fórum combinando com o Rio +20, com temas também ligados à questão ambiental. Agora estamos trabalhando para esse evento acontecer.
Para conhecer a Ciranda, acesse o site da instituição.

