10 movimentos atuais inevitáveis do midialivrismo

Fábio Malini *

O programa Onda Cidadã, do Itaú Cultural, lança a primeira versão do Mapeamento sobre Mídias Livres no Brasil, iniciado durante o ano de 2009. O mapeamento é composto de mais de 250 iniciativas de midialivrismo e ativismo cultural. E analisa os tipos de veículos de comunicação, as formas de sustentabilidade, as metodologias de trabalho, os tipos de profissionais, os públicos preferenciais, enfim, toda uma gama de informações sobre a cadeia produtiva do que se tem chamado de “cultura livre” no Brasil.

A escolha dos mapeados, nesta primeira fase, se deu através da junção das mais de 40 iniciativas que participaram do I Fórum Onda Cidadã no Rio de Janeiro, em 2007, com a lista de pontos de mídias livres premiados e/ou classificados nos editais do Ministério da Cultura. Com total de 250 experiências, o Mapeamento das Mídias Livres congrega iniciativas reconhecida como modelos na produção de cultura livre no país.  O instrumento de pesquisa adotado para o mapeamento foi o formulário online, com perguntas fechadas e abertas. Após a aplicação, os formulários preenchidos foram checados para que se identificasse possível erros. Cerca de 180 deles revelaram algum problema de preenchimento. Para solucioná-los, a equipe telefonou para cada um dos mapeados, corrigindo esses erros. Após essa fase, os dados foram reunidos e tabulados, apresentando os resultados a seguir, sinteticamente, na forma de gráficos, que você pode conferir mais detalhamente aqui e aqui. As iniciativas midialivristas ainda foram transpostas para um mapa interativo, onde o usuário pode acessá-lo na íntegra.

Pesquisador Fabio Malini fala sobre mapeamento Onda Cidadã by ondacidada

1. Quanto maior a população conectada, maior é (e será) o midialivrismo.

O Mapeamento registra iniciativas em todos os estados. Dos 250 mapeados, a maior parte se concentra na região Sudeste (48%). Mas destaca-se na amostra a região nordeste (16%), que se tornou uma área de atuação de vários organizações sociais ligadas ao campo da cultura. É claro também que o gráfico reproduz uma correlação direta entre população e iniciativas midialivristas. Nordeste e Sudeste são as regiões brasileiras mais populosas e é de se esperar que, neste caso, apareça um volume grande de iniciativas de cultura livre. Contudo, é importante salientar que no Nordeste e Norte situações como o baixo acesso à internet criam limitações na produção midialivrista.

2. Midialivrismo não parará de ser digital e em rede

Um dados mais interessantes da pesquisa revela que a internet é o veículo mais utilizados pelos midialivristas: 50% das experiências de mídias independentes são realizações que ocorrem na web. Há uma dupla interpretação para esse fenômeno. Por um lado, a existência de serviços na web que permitem publicação automática de vídeos, textos, sons e fotos. Isso fez explodir o surgimento de sites e blogs independentes marcados pela especialização e pela boa qualidade profissional de conteúdo multimídia. De outro lado, a formidável criação de máquinas de compartilhamento de notícias, inauguradas pelas chamadas redes sociais, permitiu se  dispor e monitorar melhor os públicos, agora, transformados em parceiros, seguidores ou amigos. Esse duplo fenômeno fez inaugurar novos modos de engajamento em torno da informação, novos modos de cálculo do alcance de uma notícia e a brutal partipação do públicos nos temas mais relevantes do espaço público midiático. Essa metamorfose no campo da publicação permitiu que mídias livres passassem a projetar na internet o seu locus mais genuíno de realização.

Assim, se, na década de 90, a utopia digital é a de transformação de todas as organizações e indivíduos online em portais de notícias, o que significava uma inflação de sites e hiperlinks num só domínio, altos custos com gerenciadores customizados de conteúdo e contratação de mão-de-obra cara e especializada (diga-se de passagem: modelo este ventilado pelas corporações de mídia da época); na primeira década do século XXI, a revolução do compartilhamento pós-Napster difundiu, no sentido inverso, a transformação de todos em uma página única (perfil) na internet, criando uma nova economia política da informação, cujo valor não decorre do controle das das “mensagens às massas” e do acúmulo e irradiação de conteúdos; mas da capacidade de conectar pessoas a informações, a ações e a outras pessoas, liberando-as para compartilhar todo tipo de conteúdo na rede. No atual paradigma do compartilhamento livestream, ao alimentar a criação de novos perfis de redes sociais, o valor reside na quantidade de interações geradas e na socialização dos conteúdos.

É por isso que hoje as iniciativas  de mídia mais valorizadas, como Facebook ou Twitter, se caracterizam por nada produzir de conteúdo, elas somente possibilitam, com suas plataformas, que um jornal ou o seu respectivo leitor atue, de modo igual, como criador e replicador de mensagens multimídia. Sem dúvida que isso acaba por constituir uma nova hierarquização social, tanto em termos de capitais (a hegemonia de empresas como facebook, Apple e Google sobre a indústria da notícia), quanto do ponto de vista da relação capital-trabalho (o furto do tempo social para criar gratuitamente valor e inovação às corporações de tecnologia).

Contudo, é inegável destacar que, nesse novo cenário de mídia, publicar significa que existem muito mais meios de comunicação social e que o “assunto do momento” não é apenas produto da rotina produtiva das instituições da notícia (imprensa), mas gerado pela mistura de veículos formais, coletivos informais e indivíduos, que fazem provocar a emergência não somente de novas formas de espalhar, de modo colaborativo, as notícias, mas sobretudo de contá-las. “A mesma ideia, publicada em dezenas ou centenas de lugares, pode ter um efeito amplificador que pesa mais do que o veredicto de um pequeno conjunto de mídias profissionais” (Shirky, 2008, p..67).

3. Mídia livre é cada vez mais utilizada como metodologia de projetos sociais de ONGs e governos: a mídia livre institucional/empresarial

Há uma pluralidade organizacional no âmbito do  comunicação independente.O gráfico demonstra que o midialivrismo se move em torne de três grupos: organizações sociais, coletivos e pequenos empreendedores. Assim, no mapeamento, encontramos  três modos de atuação midialivrista. O primeiro se realiza dentro das organizações sociais do terceiro setor (ongs, oscip, fundações, movimentos comunitários). Representam, no gráfico ao lado, 56% das mídias livres.São iniciativas de mídia associadas à projetos culturais/sociais. Mas a marca principal é a sua institucionalidade na forma de “organização social”. Em geral, mídias livres institucionalizadas são herdeiras do midiativismo de massa das décadas de 80 e 90, quando rádios comunitárias, imprensa sindical e organizações não-governamentais começam a lutar mais duramente pelo direito à comunicação, ao mesmo tempo que vão adquirindo “musculatura midiática”, ao conseguir concessões públicas de rádio e tevê e estruturas mais profissionalizadas para seus próprios veículos.

4. Experimentação na linguagem, cultura livre e democratização da comunicação formam cada vez mais o ideário do midialivrismo

O segundo tipo de mídia livre são os coletivos culturais (grupos, sites, revistas, que somados representam 32% das iniciativas estudadas). São grupos sociais formalizados ou não, cujo principal valor se explicita na experimentação.  O interessante dos coletivos é que eles são produtores de conteúdos e de linguagens experimentais ao mesmo tempo que são agentes políticos que exigem multiplicidade, novas formas de compartilhamento do conhecimento e democratização da comunicação.

5. Realizadores de mídia livre são empreendedores políticos.

E o terceiro modelo de mídia livre acontece no interior de blogs e sites independentes. Experiências que estamos chamando de ‘mídia de um homem só’, marcadas pela atuação de indivíduos na produção de opinião e notícias relevantes nos espaços públicos locais e nacionais. Esta ação individual cada vez mais é formalizada em uma institucionalidade microempreendedora, criando a figura dos chamados “empresários progressistas da comunicação”.

6. Estudante de jornalismo de hoje é o midialivrista de amanhã

A maior parte dos coletivos, instituições e inciaitivas individuais mais organizados de produção de mídia tem a presença do profissional formado em Jornalismo. A presença também é um marco tendencial simples de compreender:  após  a emergência da internet como suporte para a produção de notícias, jornalistas foram estimulados a produzir seus conteúdos de modo autônomo na rede, articulando uma nova cena de publicações de imprensa, alargando o espaço público midiático, o que fez acelerar um processo de renovação na linguagem jornalística e o aparecimento de uma profusão de periódicos especializados, com conteúdo atualizado e apurado de dentro dos acontecimentos. Essa cena mais blogueira do que corporativa só terá força à medida que se constitui de modo coletivo, como blogs de humor, blogs de cultura, blogs de economia, enfim, menos como um ato solitário e mais como uma ação coletiva. Essa “ação entre amigos” promoverá um rearranjo político naquilo que se convencionou no século passado de “opinião pública”. Se o jornalismo atua dentro dessas experiências, há de se argumentar que a produção de narrativas atuais e histórias, abrangentes e especializadas, e com denúncias e e críticas sobre o cotidiano que vivemos é algo que estão presentes na prática de vida midialivrista.

7. Formalização midialivrista chega com precarização

Há uma tendência forte de formalização do midialivrismo: 71% das iniciativas são feitas em organizações que possuem CNPJ. Sem dúvida, isso guarda relação com o permanente financiamento público via editais, ocorridos na última década, que exigem, com frequência, a institucionalidade formal como critério de acesso à recursos públicos e privado (em muitos casos, existe o aluguel de CNPJ, como estratégia de obtenção de recursos, gerando uma prática de cnpjotagem da cultura).

Contudo, essa tendência de formalização continua a se  realizar, embora boa parte do midialivrismo ainda esteja submetido a processos de trabalho precarizados. Para se ter uma ideia, 46% das pessoas envolvidas nas iniciativas estudadas atuam de forma voluntária. E 33% contrata free-lancers para o dia a dia do suas atividades.

Um outro dado que explicita essa precarização é a autonomia em relação à sede.  Apenas 51% das iniciativas estudadas possuem sede própria. Ausência de espaço próprio de atuação cria limitações no próprio amadurecimento da qualidade do trabalho e da ampliação da abrangência das atividades.

8. Produtos e processos próprios serão os principais recursos que o midialivrista possuirá para obter ganhos econômicos

É dentro desse quadro de precarização que a sustentabilidade é praticada por midialivristas e instituições. A pesquisa demonstrou que há um leque maior de estratégias de sustentação financeira dessas iniciativas. E não há entre elas o predomínio de uma única fonte de recurso para financiamento das atividades. O que conta ainda é uma certa “se-virologia”: a maior parte do trabalho é autônomo, sem vínculos formais e contratos de trabalho definidos, com excecção do midialivrismo institucional, onde o trabalho é mais organizado, mas a autonomia de trabalho é menor, já que os temas de trabalho obedecem a diferenets agendas institucionais.  O que há de novo – memso entre os precários – é a venda de produtos (modo de vida peculiar de se fazer uma notícia) como estratégia de ganho de renda, através de práticas como cobrança de mensalidades, prestação de serviços de assessoria/consultoria e realização de oficinas/palestras/coberturas. E isso demarca o fato de que o trabalho midialivrista é, ao mesmo tempo, uma atuação na produção de linguagens comunicacionais, mas, sobretudo, de conhecimento sobre o funcionamento de ferramentas, de construção de públicos e de produção de redes, para citar três habilidades típicas da geração que cria por conta própria (sem contrato de trabalho, o que é um grande problema), para além da cultura da doação e do patrocínio.

9. Nichos deverão ser cada vez mais mobilizados para fins econômicos.

A maior parte desses três modos de midialivrismo tem como unidade de atuação o território local: 51% das mídias livres tem sua comunicação  voltada à cidade e/ou ao bairro. A pesquisa revela que, mesmo sendo iniciativas interconectadas em rede, as mídias livres mobilizam realidades próximas a de seus autores/realizadores. Isso reforça a tese de que, com o incremento de alternativas tecnológicas de produção de informação e o barateamento da distribuição de conteúdo (principalmente online), as mídias livres passaram a ocupar os chamados nichos culturais, constituindo públicos assíduos e leais a seus produtos.

Assim, as mídias livres emergem como novos atores do espaço público informacional, mas trazendo consigo um dilema curioso, uma espécie de “sina dos nichos”, isto é, o fato de só existirem por ocupar uma franja de público que se nega a uma certa massificação. Quanto mais fragmentado o  público, mais forte é a influência do blogueiro A contrapelo, guetizada em públicos específicos, essas “novas mídias” têm dificuldades na criação de assuntos comuns e mais abrangentes, influenciando pouco um universo mais amplo de grupos da sociedade. Sem dúvida, uma das atividades atuais mais interessantes no Brasil é o surgimento de iniciativas que buscam interconectar os locais, criando circuitos de informação/cultura que são, ao mesmo tempo, local e nacional/global, buscando, assim, fazer do nicho um laboratório de diferenças que possam ser massificadas, através de novas modalidades de circulação e consumo de comunicação.

10. Formação é o principal dilema para qualificação da realização de mídias livres.

A rapidez da criação de novas ferramentas e gadgets que ampliam a produtividade do trabalho midialivrista (o que poderia ser lido também acelerada descartabilidade de tantos outras) faz com que a qualificação no uso de diferentes dispositivos de gravação de som e vídeo,; publicação de textos em blogs e redes sociais; difusão e técnicas de monitoramento e SEO;  uso de aparelhos móveis de alta perfomance;  a qualificação na invenção de narrativas multimídia nativas para a internet; técnicas de uso de plugins, temas e de desenho de sites;  sem contar na necessidade de se criar estratégias de sustenbtabilidade dos veículos (em fontes de financiamento existente na própria rede)  pede uma (urgente) formação continuada do midialivrista. Na pesquisa, formação aparece como hoje o maior empecilho para a qualificação.

“Essas dez constatações sobre o midialivrismo, de qualquer forma, demonstra a existência de uma jovem ecologia de mídia no Brasil. Um sistema midiático (in)dependente que já possui forte influência entre uma população jovem, que fica mais conectada à rede cibernética do que a outra rede, a televisiva – uma transformação até difícil de acreditar, mas que segue sendo atestada por diferentes medições de audiência. E podemos concluir que há dois modos de midialivrismo em vigor, modos que já disputam espaços, públicos e recursos, numa relação de tensão e/ou complementaridade: há o modo político (institucional, ou o “midialivrismo de OS”) e o experimental (como uma nova política de mídia, ou o “midialivrismo de coletivos”). A confusão reside na constatação de que um quer ser o futuro do outro, e isso está recheado de contradições”.


* Blogueiro e professor de Novas Mídias na Universidade Federal do Espírito Santo.

4ª edição do Congresso Fora do Eixo reúne agentes culturais em São Paulo

O Fora do Eixo realiza em São Paulo, de 11 a 18 de dezembro, a 4ª edição do Congresso Fora do Eixo. O maior encontro presencial da rede tem a expectativa de público superior a mil pessoas. Além de representantes do Circuito, o Congresso conta com a presença de diversos setores socias, entre politica, economia e educação e profissionais da cena cultural, como música, cinema, teatro e literatura.

São sete dias de atividades intensas, dividindo vários grupos em GTs (Grupos de Trabalho), GDs (Grupos de Discussão), encontros, plenárias e mesas de debates. Com uma proposta diferenciada para estímulo do intercâmbio entre os participantes, o congresso também oferece vários momentos para reuniões livres, norteadas por temas pertinentes aos debates atuais estabelecidos na rede permitindo um cruzamento de ideias entre os mais variados agentes. O período da noite é destinado para as plenárias do Fora do Eixo, em um processo totalmente transparente de tomada de decisões e encaminhamentos práticos das ações do FdE.

O Congresso propõe discussões setorizadas e a relação com a cultura, através dos seguintes eixos: Universidade da Cultura (Unicult), Banco Cultural (Bancult), Centro Multimidia e Partido da Cultura (PCult), que vão dialogar com com todas as ações e linguagens artísticas do Fora do Eixo. A intenção da 4ª edição do COFE  é nivelar o conhecimento produzido em cada um dos pontos fora do eixo, fortalecendo as referências no processo de construção de simulacros sociais, ressignificando o Banco, o Partido, a universidade e os meios de comunicação.

Marielle Ramires, gestora de produção do COFE, conta que este ano o Congresso apresenta as tecnologias de articulação do circuito muito mais aperfeiçoadas. “Fortalecemos o Partido da Cultura e a Universidade Livre, ganhamos prêmios e demos passos importantes no processo de interlocução com São Paulo e diversas capitais brasileiras, além da internacionalização realizada através de ações na Argentina e em seis países da Centro América”, comenta.

Fonte: Assessoria Fora do Eixo