Formação Livre e em Fluxo

A mutação vai acontecer quando a formação deixar de ser feita nos moldes acadêmicos. #culturahacker

Ivana Bentes

Qual o lugar da educação e da formação numa sociedade em que os dispositivos tecnológicos de criação, produção, difusão são atravessados por uma forte dinâmica colaborativa, livre, aberta e baseada em ação direta? E que coloca em xeque os intermediários clássicos: escola, universidade, professores e os certificadores dos saberes?

Na passagem do capitalismo fordista para o pós-fordista (imaterial, cognitivo, comunicacional), os processos de produção cultural exigem novos modelos de produção do conhecimento, experiências de formação livre, vivências, vidas-linguagens que explodem a “fábrica”. O novo ciclo de produção na música, no audiovisual, o midialivrismo, crise das gravadoras, editoras, a crise dos intermediários e atravessadores, a crise do pensamento copyright exige uma nova deriva formativa.

É que a fábrica/Matrix se desregulou, a divisão de saberes e disciplinas estanques que refletia o modelo industrial do século XIX, a linha de montagem com setores isolados e independentes um do outro, se tornou obsoleta, mas ainda atuante: fabricação pela disciplina ou pelo controle de “corpos dóceis”.

Vistas como espaços de “encarceramento” (sejam reais ou virtuais) e de poder sobre a vida, é difícil não posicionar a Escola tradicional no mesmo paradigma disciplinar que regia fábricas-hospitais-prisões (como apontou Michel Foucault) ou no mesmo modelo de controle da vida, assujeitamento dos corpos e produção de desejos, que caracterizam o “biopoder” (poder sobre a vida).

Vida-trabalho-formação-expressão

A questão contemporânea é que toda a sociedade se tornou formativa. A cidade e as redes são o próprio ambiente cognitivo (a cidade é a nova “fábrica’ como diz Antonio Negri). O tempo do trabalho se confunde com o tempo da vida (não mais o trabalho morto automatizado, mas o trabalho-vivo, a vida-trabalho). Nesse contexto a Escola não deveria mais formar para a vida, a Escola torna-se a própria vida, se confunde com ela.

É por isso que vemos uma explosão de iniciativas de educação não-formal, escolas livres, universidades livres e uma demanda por formação nos Pontos de Cultura e Pontos de Mídia, tendo como base a autonomia e liberdade como dois princípios para uma revolução/mutação em fluxo, que já está em andamento.

O desafio é como dar visibilidade e reconhecer esse potencial formador e responder a demanda por formação dos coletivos, comunidades, diferentes tipos de organizações com suas dinâmicas e processos próprios. Experimentar e sistematizar as novas formas de visibilidade, partilha e certificações dos saberes.

No encontro do Onda Cidadã de 2012 o tema da formação a partir das práticas e experiências do Pontos de Mídia surge tanto como demanda de reconhecimento das metodologias desenvolvidas e utilizadas quanto desejo de potencialização.

Os próprios participantes demandam um maior domínio técnico de ferramentas, mas igualmente uma formação intelectual e universitária ou ainda uma grande preocupação com a gestão (de recursos, pessoas, capital simbólico), o que está diretamente ligado a potencialização experimentação e consolidação de diferentes formas de organização e capacidade de atuação e intervenção.

É o que aparece no resultado da pesquisa apresentada pelo Onda Cidadã:

“Em termos gerais, a demanda por formação se caracteriza pela busca do aperfeiçoamento técnico em cursos profissinalizantes (20%), pela busca de mais conhecimento em gestão (36%) e na adoção de políticas de formação intelectual formal (sobretudo universitária – 15%)”.

Ou seja, por um lado os Pontos de Mídia estão criando dinâmicas e metodologias próprias, vivências, imersões, observatórios, formação pela mídia (midialivrismo) e pelas redes sociais e simultaneamente demandam uma participação e partilha dos saberes institucionalizados, que agregam valor.

É importante destacar como os processos de midiatização e as práticas midiativistas já são formativas e se constituem simultaneamente como documentação e material didático (vídeo, fotos, textos, auto-documentação, diários, relatos, relatório, documentários, making-offs, tutoriais) e se tornam decisivos não apenas a dinâmica de produção, acesso e circulação de conhecimento, mas na auto-formação do Pontos de Mídia e coletivos.

O que poderia ser uma formação P2P (ponto a ponto) ou uma “peerdagogia”? Como os Pontos de Mídia são ou podem ser Pontos de Formação? O caráter distribuído remete-se a uma re-conceituação política: os usuários ocupam os mesmos papéis sociais porque detêm igualmente todos os recursos que as redes oferecem.

O “educador” deixa de ter um “privilégio” ou “reserva de Mercado” e vê o seu papel compartilhado pela mídia, redes sociais, educação não-formal, apontando para a constituição de uma inteligência coletiva em rede.

Na prática, os processos peer-to-peer da internet e seus dispositivos tem o potencial de criar um espaço de trabalho colaborativo e participativo, rompendo assim a hierarquização e a unidirecionalidade da aprendizagem, fomentando um processo de conectividade irrestrita em rede, exigindo dos educadores preparação para inserção crítica nesse universo das práticas de conexão mútua na internet que criam um “ponto de mutação” em relação as práticas tradicionais.

Os Pontos de Mídia podem ser reconhecidos e emponderados para se tornarem Pontos de Formação, mas para isso precisam de infra-estrutura instalada (sede, banda larga, ferramentas) ou bancos de dados e acesso aberto em nuvem e acessíveis via mídias móveis, que é a base da livre produção de capital simbólico, disputa de narrativas, produção de valor.

Mas qual o capital dos Pontos? Um dos resultados da Pesquisa do Onda Cidadã com os Pontos de Mídia aponta as parcerias como um dos maiores ativos dos coletivos. Quem tem redes de parceiros, participantes com tempo livre e potencial de trabalho colaborativo e formativo é mais sustentável, pois pode constituir uma “moeda” própria, bancos de tempo e de serviços, gerar riqueza e valor redistribuídos para o Comum e para a própria sustentabilidade.

Essa é a o que podemos chamar de “economia da vida”. No Brasil, como em diferentes países, explodem as experiências de Bancos de Tempo e Moedas Sociais que podem criar, fazer circular e redistribuir ativos em territórios e redes.

Multicertificação: poder distribuído

É nesse contexto que foi apresentando também a proposta de constituição da Universidade da Cultura Livre (Unicult), propondo mapear processos e iniciativas de formação na área cultural no Brasil. O objetivo do mapeamento é articular os grupos que querem contribuir com a implantação de um projeto experimental em formação.

A Universidade Cultura Livre se propõe como “um consórcio de instituições multilaterais — integrando universidades, coletivos, órgãos governamentais, pontos de cultura, instituições de formação e entidades da sociedade civil — orientado ao desenvolvimento de programas de formação continuada na área cultural em todo o Brasil. Com objetivo de promover a formação continuada dos diversos operadores da cultura a partir da integração de iniciativas de capacitação, na perspectiva de educar através da Cultura, para a Cultura”.

Trata-se de uma iniciativa de mapeamento e visibilidade de ações de inovação no processo de ensino-aprendizagem que leve em consideração a dimensão colaborativa, multimídia, recombinante (cultura do remix) e em redes que atravessa a sociabilidade atual. Educação e formação pelas mídias e também para as mídias que apontem para um uso crítico, estético e político dessas ferramentas.

São muitas as experiências em curso: midialivristas, pedagogia Griô, pedagogia quilombola, processos de apropriação das tecnologias pelas culturas populares e tradicionais (indígenas, ribeirinhos, caboclos, etc.), produção cultural e de conhecimentos vindas das periferias brasileiras, apontando para a emergência de uma cultura popular digital. Parte dessa mutação mais ampla em que a cultura se torna central na produção do conhecimento e na constituição de uma nova economia.

Processos de formação resultados dos fazeres e práticas nos mais diferentes campos: audiovisual, teatro, música, dança, multimídia, conectando e tornando indissociáveis a vida e trabalho desses agentes formadores.

Efervescência e diversidade que podemos encontrar em um programa como o Cultura Viva do MinC que se propôs a pensar de forma pioneira e como política pública esses novos arranjos: cultura viva, economia viva, dando visibilidade, conceituando e apontando para o potencial inovador desses processos.

Circuito Cultural e Movimento Social

Nesse sentido destacamos ainda as experiências formativas do Circuito Fora do Eixo que criou a sua própria Universidade Fora do Eixo (UniFdE) propondo compartilhar e sistematizar suas metodologias de formação (cartilhas, colunas que rodam territorialmente por todo o país, imersões, vivências, observatórios, oficinas, wikis, Pós-TV).

Com uma forte experiência midialivrista e midiativista, o Fora do Eixo é uma das referências em relação aos modos de transformar a precariedade, a fragmentação e atomização dos coletivos, em um circuito integrado e descentralizado, que tem como base de sustentação uma cultura e economia em rede distribuída.

Trata-se de uma proposta singular e bem sucedida de simultaneidade dos processos de realização, experimentacão, formação, em que todas as ações do circuito se tornam metodologias potenciais de formação livre, a serem replicadas e compartilhadas e que lança mão de diferentes estratégias de sustentabilidade, tendo como base, os ativos do próprio circuito (tempo livre, força de trabalho, domínio das linguagens midiáticas e narrativas multimídias).

Ao fomentar e organizar circuitos territoriais e virtuais (de música, audiovisual, palco, letras, mídias, redes de formação política), ao criar experiências de vidas compartilhadas e espaços de convivência comunitárias (com caixas coletivos e um novo comunitarismo), ao criar moedas e bancos de tempo, economia viva, a experiência Fora do Eixo transborda as fronteiras vida/educação, vida/trabalho, numa deriva experimental em que tudo é “laboratório”, tudo é formação. O processo formativo, seu mapeamento e sistematização não “prepara” para a vida, é a própria vida se experimentando e potencializando.

Podemos mencionar ainda as experiências midialivristas (de formação pela mídia e para as mídias) que inovam ao simplesmente desconfiguram os espaços tradicionais de fala: a Escola Popular de Comunicação Critica da Maré (ESPOCC), a Escola de Hip Hop do movimento Enraizados, no Rio de Janeiro, a Agência Redes para a Juventude, o projeto Cinema Nosso, e diferentes coletivos e movimentos que convertem a carência/falta/precariedade em potência, resignificando os territórios vulneráveis, a favela, as periferias, disputando narrativas e inventando suas próprias metodologias de formação.

O entendimento que a comunicação e a mídia deixaram de ser “ferramentas” e se tornaram a própria forma de organização dos movimentos culturais e sociais se expressa de forma transversal nos diferentes projetos e missões dos Pontos e coletivos e de forma mais explicita nos projetos de comunicação e midiativismo das propostas da Agência Pública, Coletivo Palafita, Jornalismo B, Voz da Comunidade.

Trata-se de mobilizar a todos diretamente em um processo intensivo e midiático de formação política que ativa e desloca os lugares de poder/saber. A formação política surge assim como horizonte e missão de muitos grupos e a demanda por um aprofundamento e continuidade nessa formação também é vocalizada nas propostas de diferentes coletivos: A Fábrica – Cultura Coletiva, Coletivo Verde, 3ecologias, Colméia Cultural, SOMOS, Raízes em Movimento, Descolando Ideias, etc.

A ideia que a produção de conhecimento deva ser livre e aberta, gratuita, (utilizando licenças flexíveis, Creative Commons, Recursos Educacionais Abertos/REA) é decisiva nesse novo paradigma. Nesse sentido políticas públicas como banda larga gratuita, o Marco Civil para a Internet ou a Reforma da Lei do Direito Autoral _ discriminalizando as práticas do compartilhamento de arquivos, cópias, exibições de filmes para uso educacional, cultural _ são a base da revolução dos “commons”, dos bens comuns partilháveis e da emergência de uma intelectualidade de massa.

Daí o estímulo decisivo a pesquisas em processo (work in progress) abertas na rede e utilizando linguagem Wiki, construção de repositórios públicos e gratuitos de dados e conteúdos, servidores públicos e plataformas, disseminação das webTVs, transmissão ao vivo de conteúdos audiovisuais os mais heterogêneos.

A Cultura Livre e Cultura Digital são outra plataforma transversal e condição para a sustentabilidade e potencialização do campo midialivrista e surge pontualmente ou como missão de diferentes grupos: Coletivo Digital, Iconoclassistas, 3ecologias.

Essas são também algumas das condições de uma wiki-escola ou wiki-universidade, Universidade p2p ou formação aberta, em que o processo de ensino-aprendizado e a produção dos conteúdos envolve em diferentes níveis todos os participantes e a própria formação dos educadores/formadores é baseada na produção de conteúdo para os ambientes colaborativos e ferramentas livres.

Para pensar essas diferentes derivas formativas é decisivo ainda uma documentação dos processos e metodologias diferenciais que permita criar um acúmulo de repertórios, textos, bancos de imagens, bancos de ideias, links que servirão de referência para as experiências de consolidação e multiplicação dessas práticas e metodologias e como referências para outros formadores, experimentadores.

Outro aspecto importante é a atenção para as linguagens, narrativas, que deixam de ser questões acessórias e junto com a apropriação tecnológica surge como campo de disputa e ação de muitos coletivos. Arte contemporânea, performance, ações politico-midiáticas que encaram a estética como indissociável de um campo de expressão e intervenção política, como ampliação de repertório e posse das diferentes linguagens da arte contemporânea, como aparece nas propostas de grupos como: Arteliteratura Caimbé, Coletivo 308, Coletivo Claraboia, Coletivo Palafita, Coletivo PIXXFLUXX, Coletivo SHN, Coletivo Trotamundos, etc.

Condições para uma Formação em Fluxo. Propostas e Ações

Entre as propostas discutidas podemos destacar a importância de dar visibilidade a formação como campo de atuação, expertise e sustentabilidade (serviços), com experiências que podem ser multiplicadas não só por outros coletivos, mas na política pública.

Outra questão recorrente é a possibilidade de articulação (criação) de plataformas, banco de dados, catálogos, inventários, de metodologias, processos, práticas formativas, rede de relações e serviços, partindo do que já está sendo feito e pode ser trocadas e compartilhados, ações de fortalecimento das redes de formação e auto-sistematização.

Muitas experiências jea estão sendo feitas, dai a importância de dar visibilidade e criar «trajetos de formação» e «percursos formativos».

Em relação as condições para uma formação aberta destacamos a necessidade de se apoiar a produção de Recursos Educacionais Abertos (REA) e estimular e viabilizar o licenciamento dos materiais didáticos, artísticos, expressivos, estéticos, com licenças de uso livre, não-comercial, cultural, educacional, etc.

Se as parcerias aparecem como uma “moeda” fundamental e como ativos decisivos na sustentabilidade seria preciso mapear infraestrutura instalada nos entornos dos projetos, para criar e potencializar parcerias e estimular arranjos e formas de organização em redes.

Destacamos ainda o vivo debate em torno da proposta de integração e parcerias dos grupos e coletivos com as politicas e projetos de Extensão das Universidades públicas, pensando no desafio que colocar de pé um sistema de multicertificação entre instituições de ensino formal e formação livre.

Durante os dois dias foram propostas por nós, de forma mais pontual, as seguintes ações, que constituem um Banco de Ideias em permanente reformulação e virtualização para todos que se dispõem a levar adiante o desafio de constituir uma rede distribuída de multinstituições, autônoma, de mídia livre e mesmo pensar o que poderia ser uma rede de Pontos de Formação. São propostas que tem como horizonte a constituição e fortalecimento de uma cultura de redes no Brasil.

Banco de Ideias (Ivana Bentes)

1. Criação de plataformas, bancos de dados, catálogos, de metodologias, processos, rede de relações e serviços.

2. Sistematização das metodologias, dinâmicas, atividades de formação de cada coletivo/grupo e pensar que ações de formação podem ser trocadas e compartilhadas.

3. Fomento para auto-sistematização, documentação e difusão de um banco de metodologias e dinâmicas (tutoriais, dinâmicas, métodos, práticas) em mídia livre/cultura digital/meio ambiente/cidades

4. Responder as demandas de formação dos próprios coletivos com apoio a formação e fomento no campo da gestão, desenvolvedores, produção audiovisual, design, cultura digital, etc. Responder a demanda de intercâmbio com a educação formal, através da extensão das Universidades, parcerias dos coletivos com as Universidades e certificação.

5. Consórcio de Certificação ou Auto-certificação ou Certificação colaborativa. Todos os coletivos e rede midialivrista e de cultura digital participam (juntos com as Universidades formais) da certificação de suas experiências de formação, cursos, oficinas, imersões

6. Articulação das atividades de formação/produção em um circuito, trajeto, percurso para imersões, encontros e atividades de trocas de experiências, ações e metodologias (ex. Circuito de Mídia Livre ou de formação em Cultura Digital de capitais e de cidades pequenas) que dê visibilidade a experiências de educação não formal

7. Utilizar/ Integrar a Agenda de Ações das redes e coletivos para funcionar como roteiro e oportunidade de parcerias e ações integradas e compartilhadas. Pois essa agenda das ações já são oportunidades de formação, trocas e parcerias.

8. Sustentabilidade. Prestação de serviços que revertam para o fortalecimento da missão/proposta/projeto dos coletivos/grupos. Mobilizar, contratar os coletivos como organizadores dos eventos, produtores de mídia, de streaming, gestores de redes sociais, etc.

9. Sustentabilidade. Apoio e fomento a gestão, estímulo as novas formas de economia colaborativa, moedas complementares, trocas de serviços, cooperativismo e associativismo. Banco de serviços.

10. Sustentabilidade. Infra-estrutura instalada nos coletivos. Ponto de internet banda larga, equipamentos, laboratórios,etc.

11. Sustentabilidade. Fomentar a aquisição de sedes próprias ou estimular o uso «associado» de um mesmo espaço por diferentes coletivos ou mapear espaços públicos que possam ser cedidos para uso temporário em parceria.

Ivana Bentes

Ivana Bentes é professora e pesquisadora do Programa de Pós-Graduação em Comunicação da UFRJ, diretora da Escola de Comunicação da UFRJ, coordenadora do Pontão de Cultura Digital da UFRJ, Laboratório Cultura Viva, e participa das redes Fórum de Mídia Livre e do projeto de fabulação e implantação de uma Universidade da Cultura Livre.

Jogo de Ideias: comunicação autônoma

Na segunda parte do especial Onda Cidadã, um programa permanente do Itaú Cultural, criado em 2003 e que pensa as formas autônomas de comunicação e seu impacto social, cultural, educacional e econômico, Alexandre Pankararu fala sobre seu trabalho como criador da rede de inclusão digital, Índios Online e assessor de comunicação da Articulação dos Povos Indígenas do Nordeste, Minas Gerais e Espírito Santo (Apoime), importantes canais de acesso à informação dedicada a todas as tribos e interessados em geral; João Paulo Malerba fala sobre sua trajetória profissional como presidente da Associação Mundial das Rádios Comunitárias no Brasil (AMARC) e da paixão que move os comunicadores autônomos a fazer desses veículos alternativos um canal para difundir suas próprias histórias e suas percepções de mundo; e André Lobato (“Kaveira”), artista ambientalista multimídia, fala sobre a trajetória do projeto “Caravana Carbono Neutro”, iniciativa da ONG Apaverde, instalada na cidade de Belém do Pará, criada e coordenada por ele.

Entrevistas para o programa Jogo de Ideias, gravado durante a realização do II Fórum Onda Cidadã, no Itaú Cultural, São Paulo/SP, em junho de 2011. Apresentação de Claudiney Ferreira.

 

Jogo de Ideias: midialivrismo

Na terceira e última parte do especial Onda Cidadã, um programa permanente do Itaú Cultural, criado em 2003, que pensa as formas autônomas de comunicação e seu impacto social, cultural, educacional e econômico, Altino Machado, jornalista e blogueiro acreano, fala sobre sua formação profissional e sobre a importância dos blogs como ferramenta de comunicação, especialmente em regiões mais distantes dos grandes centros comerciais do país; Marco Amarelo, hacker e midialivrista no Paraná, fala de sua atuação no no movimento Soy Loco por Ti, um coletivo que produz comunicação alternativa para a América Latina; e Joanice Sampaio fala sobre sua trajetória profissional como jornalista e da rotina e dificuldades como blogueira na cidade de Fortaleza, no Ceará, onde mantêm o blog Papo Cult.

Entrevistas para o programa Jogo de Ideias, gravado durante a realização do II Fórum Onda Cidadã, no Itaú Cultural, São Paulo/SP, em junho de 2011. Apresentação de Claudiney Ferreira.

 

Fórum Onda Cidadã debate o midialivrismo

Nos dias 23 e 24 de agosto, o Itaú Cultural realizará o Fórum Onda Cidadã . O evento servirá para o debate sobre o Mapeamento das Mídias Livres no Brasil do Programa Onda Cidadã, iniciado no ano de 2009.

O mapeamento, composto por mais de 300 iniciativas de midialivrismo e ativismo cultural, identifica veículos de comunicação por elas utilizados, as formas de sustentabilidade, as metodologias de trabalho, os tipos de profissionais, os públicos preferenciais, enfim, toda uma gama de informações sobre a cadeira produtiva do que tem se chamado de “cultura livre” no Brasil.

A intenção do Fórum é apresentar para esse grupo os resultados obtidos até o momento, comunicar os próximos passos do projeto e articular com o grupo como o programa Onda Cidadã pode contribuir para a cultura livre do país.

Para fomentar esse debate, convidamos midialivristas e ativistas culturais de todas as regiões do Brasil, que também serão entrevistados para documentar, em vídeos, suas histórias na produção da cultura livre brasileira. Essas entrevistas serão publicadas no site do Onda Cidadã, que terá como meta ser um site que reúne história e análise do midialivrismo.

Onda Cidadã

O Onda Cidadã é um programa permanente do Itaú Cultural que busca analisar a produção das mídias autônomas e fomentar conhecimentos que sirvam de base para qualificar o campo da cultura livre no país. O termo Onda deriva das rádios livres e comunitárias, primeiras experiências de midialivrismo que o Onda Cidadã, em 2003, reuniu, mobilizando pessoas e emissoras de rádio comunitárias, públicas e universitárias a fim de estabelecer uma rede de troca de informações e experiências entre profissionais e dirigentes do setor.

Atualmente, o programa congrega e reúne toda uma gama de realizadores midialivristas de diferentes linguagens (digitais, impressas, fotográficas, audiovisuais, sonoras, performáticas etc.

FÓRUM ONDA CIDADÃ 2012

Dia 23 de agosto

- Abertura do Fórum Onda Cidadã

- Dinâmica de Apresentação dos Participantes do Fórum Onda Cidadã

Horário: 10h às 11h

- Mapa das Mídias Livres no Brasil

Horário: 11h às 13h

Écio Salles, Fábio Malini, Marcela Camargo e Marcelle Desteffani apresentam os novos dados sobre a realidade midialivrista no Brasil.

- Debate – Fórum Onda Cidadã – Mídia Livre no Brasil

Horário: 14h30 às 18h30

Desafios: no primeiro momento do Fórum, a estratégia didática é debater o dilemas e desafios da mídia no Brasil atual, para daí extrair – no dia seguinte – um posicionamento estratégico para o programa Onda Cidadã na cena da cultura livre brasileira.

Dia 24 de agosto

- Oficina Tutorializando uma Cobertura Colaborativa

Horário: 10h – 12h30

Dinâmica de grupo em que os participantes irão fazer um post coletivo ensinando aos usuários do site Onda Cidadã como fazer uma cobertura colaborativa para a internet através de seus conhecimentos em ferramentas de publicação, streaming, edição e gestão de redes sociais.

- Mídia Livre no Brasil – Desafios e Proposta

Horário: 15h

A partir de provocações sobre os dilemas da cultura livre brasileira , os midialivristas convidados vão prospectar como o programa Onda Cidadã pode contribuir estrategicamente para o aprimoramento e qualificação da cultura livre no Brasil.

- Relato das Atividades do Fórum Onda Cidadã 2012

Horário: 17h

Os participantes do III Fórum Onda Cidadã:

Alexandre Gomes Vilas Boas (Guarulhos/SP)
Coletivo 308 – http://www.coletivo308.blogspot.com.br/
Grupo social que visa estimular distintas formas de pensar a arte, por meio da produção coletiva e a intervenção nos espaços, realizando atividades como oficinas eperformances.

Alexandre Haubrich (Porto Alegre/RS)
Jornalismo Bhttp://jornalismob.com
O blog busca desconstruir o discurso antidemocrático da mídia dominante, com análises equilibradas e a defesa intransigente da democratização da comunicação. Possui versão impressa, financiada pelos próprios leitores.

Ana Paula da Silva (Niterói/RJ)
Bem TVwww.bemtv.org.br
Organização civil sem fins lucrativos que trabalha a comunicação e a educação para comprometer os jovens com a construção de uma sociedade solidária.

Dudu do Morro do Agudo (Rio de Janeiro/RJ)
Enraizadoshttp://www.enraizados.com.br
Criado para articular pessoas de todo o Brasil que praticam as artes integradas do hip hop (rap, break, dj e graffiti), divulga artistas e promove a cultura e a inclusão social através da militância nas periferias das grandes cidades.

Edgar Jesus Figueira Borges (Boa Vista/RO)
Arteliteratura Caimbé – http://www.caimbe.blogspot.com.br
Associação cultural formada por pessoas que atuam em diversas áreas de toda a região amazônica, cujos objetivos são fomentar a cidadania e a cultura, usando como ferramenta principal a literatura.

Haroldo Paranhos (São Paulo/SP)
Coletivo SHN – http://shn.art.br/blog
Coletivo de arte de rua com representantes nas cidades de Americana e São Paulo (SP), que há dez anos atua com intervenções urbanas com a proposta comum do “faça você mesmo”.

João Lucas (Goiania/GO)
A Fábrica – Cultura Coletivahttp://www.fabricacoletiva.com
Coletivo que busca trabalhar com cultura, conhecimento e consciência sócio-ambiental como instrumentos de transformação social, com o objetivo de conectar os diversos agentes culturais da região, viabilizando alternativas de valorização das diferentes formas de expressão artística.

Luis Nascimento (Rio de Janeiro/RJ)
Cinema Nosso – www.cinemanosso.org.br
Organização social cuja missão institucional é ampliar o universo cultural e contribuir para o desenvolvimento do senso crítico de crianças, adolescentes e jovens oriundos das classes populares, por meio da linguagem audiovisual.

Luiza Bondenmuller (São Paulo/SP)
Agência Pública – http://apublica.org
A agência de notícias é uma das primeiras experiências no Brasil na produção de jornalismo investigativo independente sem fins lucrativos.

Marcelo Hora de Araujo Júnior (Aracaju/SE)
Coletivo Trotamundoshttp://www.trotamundoscoletivo.com
Coletivo que desenvolve projetos nas áreas de produção fotográfica, estudo de linguagem visual e formação e discussão crítica no estado do Sergipe.

Maycom Brum de Almeida (Rio de Janeiro/RJ)
Instituto Raízes em Movimento – http://www.raizesemmovimento.org.br
O Instituto tem como missão promover o desenvolvimento humano, social e cultural do Complexo do Alemão e demais comunidades do entorno, por meio da participação de atores locais como protagonistas desses processos.

Pablo Osvaldo Ares (Buenos Aires/Argentina)
Iconoclasistashttp://iconoclasistas.com.ar
Coletivo argentino que questiona todas as formas de imposições privadas do conhecimento, como por exemplo o copyright. Por meio de estratégias criativas e de ações de resistência, promovem a circulação de informação por práticas colaborativas.

Rafael Barone da Costa (São Paulo/SP)
Colméia Cultural – http://colmeiacultural.blogspot.com.br/
Coletivo informal de pessoas interessadas em desenvolver o cenário cultural da capital paulista, promover a cultura e abrir espaços de trocas e vivências.

Raul Santiago da Silva (Rio de Janeiro/RJ)
Descolando Ideias – descolandoideias.blogspot.com
Grupo formado por amigos oriundos do Complexo do Alemão com o intuito de conhecer mais o lugar onde moram e assim poder melhorar sua participação na comunidade, de forma positiva e colaborativa.

Renato da Silva Pereira (Rio de Janeiro/RJ)
Coletivo Palafita – http://coletivo-palafita.blogspot.com.br
A Palafita nasceu de um coletivo de jovens artistas e comunicadores do Complexo da Maré (RJ), com o objetivo de trabalhar a comunicação de forma artística e estética, para a valorização da arte e da cultura das favelas.

Rene Silva dos Santos (Rio de Janeiro/RJ)
Voz das Comunidadeshttp://www.vozdascomunidades.com.br
Jornal da comunidade de Vila Cruzeiro, zona norte do Rio, cujo editor aprendeu o fazer jornalístico trabalhando no jornalzinho da escola onde estudava.

Ricardo Ruiz Freire (Olinda/PE)
3 Ecologias - 3ecologias.net
Coletivo de soluções sustentáveis em tecnologias da informação e cultura fundada em 2011.

Sandro Ouriques Cardoso (Porto Alegre/RS)
SOMOS – Comunicação, Saúde e Sexualidade – http://www.somos.org.br
Organização não-governamental que atua desde 2001 na luta pelos direitos humanos de lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais (LGBT) e de pessoas que vivem com o HIV/aids.

Sheila Lucilene Fernandes Boesel (São Paulo/SP)
Coletivo Claraboiahttp://coletivoclaraboia.wordpress.com
Blog que reune 13 autores que se revezam nos posts de escritos literários que vão de poemas a crônicas, da comédia ao drama, com novos textos três vezes por semana.

Tulio Kengi Malaspina (São Paulo/SP)
Coletivo Verde – http://www.coletivoverde.com.br
Portal na internet que difunde idéias e ações para um mundo melhor, visando a aproximação das pessoas aos conceitos da sustentabilidade em busca de um mundo mais verde e justo.

Wanderson Belo Gonçalves (Vitória/ES)
Coletivo PIXXFLUXX – http://www.pixxfluxx.com.br
Coletivo formado por designers, artistas, VJ’s e programadores que desde o final de 2010 desenvolvem projetos e performances associados a arte eletrônica.

Wilken David Sanches (São Paulo/SP)
Coletivo Digital – http://www.coletivodigital.org.br/
Organização não-governamental (ONG) idealizada no final de 2004 para levar adiante a experiência de seus membros nas áreas de inclusão digital, na disseminação e utilização do software livre e na promoção do conhecimento colaborativo.

10 movimentos atuais inevitáveis do midialivrismo

Fábio Malini *

O programa Onda Cidadã, do Itaú Cultural, lança a primeira versão do Mapeamento sobre Mídias Livres no Brasil, iniciado durante o ano de 2009. O mapeamento é composto de mais de 250 iniciativas de midialivrismo e ativismo cultural. E analisa os tipos de veículos de comunicação, as formas de sustentabilidade, as metodologias de trabalho, os tipos de profissionais, os públicos preferenciais, enfim, toda uma gama de informações sobre a cadeia produtiva do que se tem chamado de “cultura livre” no Brasil.

A escolha dos mapeados, nesta primeira fase, se deu através da junção das mais de 40 iniciativas que participaram do I Fórum Onda Cidadã no Rio de Janeiro, em 2007, com a lista de pontos de mídias livres premiados e/ou classificados nos editais do Ministério da Cultura. Com total de 250 experiências, o Mapeamento das Mídias Livres congrega iniciativas reconhecida como modelos na produção de cultura livre no país.  O instrumento de pesquisa adotado para o mapeamento foi o formulário online, com perguntas fechadas e abertas. Após a aplicação, os formulários preenchidos foram checados para que se identificasse possível erros. Cerca de 180 deles revelaram algum problema de preenchimento. Para solucioná-los, a equipe telefonou para cada um dos mapeados, corrigindo esses erros. Após essa fase, os dados foram reunidos e tabulados, apresentando os resultados a seguir, sinteticamente, na forma de gráficos, que você pode conferir mais detalhamente aqui e aqui. As iniciativas midialivristas ainda foram transpostas para um mapa interativo, onde o usuário pode acessá-lo na íntegra.

Pesquisador Fabio Malini fala sobre mapeamento Onda Cidadã by ondacidada

1. Quanto maior a população conectada, maior é (e será) o midialivrismo.

O Mapeamento registra iniciativas em todos os estados. Dos 250 mapeados, a maior parte se concentra na região Sudeste (48%). Mas destaca-se na amostra a região nordeste (16%), que se tornou uma área de atuação de vários organizações sociais ligadas ao campo da cultura. É claro também que o gráfico reproduz uma correlação direta entre população e iniciativas midialivristas. Nordeste e Sudeste são as regiões brasileiras mais populosas e é de se esperar que, neste caso, apareça um volume grande de iniciativas de cultura livre. Contudo, é importante salientar que no Nordeste e Norte situações como o baixo acesso à internet criam limitações na produção midialivrista.

2. Midialivrismo não parará de ser digital e em rede

Um dados mais interessantes da pesquisa revela que a internet é o veículo mais utilizados pelos midialivristas: 50% das experiências de mídias independentes são realizações que ocorrem na web. Há uma dupla interpretação para esse fenômeno. Por um lado, a existência de serviços na web que permitem publicação automática de vídeos, textos, sons e fotos. Isso fez explodir o surgimento de sites e blogs independentes marcados pela especialização e pela boa qualidade profissional de conteúdo multimídia. De outro lado, a formidável criação de máquinas de compartilhamento de notícias, inauguradas pelas chamadas redes sociais, permitiu se  dispor e monitorar melhor os públicos, agora, transformados em parceiros, seguidores ou amigos. Esse duplo fenômeno fez inaugurar novos modos de engajamento em torno da informação, novos modos de cálculo do alcance de uma notícia e a brutal partipação do públicos nos temas mais relevantes do espaço público midiático. Essa metamorfose no campo da publicação permitiu que mídias livres passassem a projetar na internet o seu locus mais genuíno de realização.

Assim, se, na década de 90, a utopia digital é a de transformação de todas as organizações e indivíduos online em portais de notícias, o que significava uma inflação de sites e hiperlinks num só domínio, altos custos com gerenciadores customizados de conteúdo e contratação de mão-de-obra cara e especializada (diga-se de passagem: modelo este ventilado pelas corporações de mídia da época); na primeira década do século XXI, a revolução do compartilhamento pós-Napster difundiu, no sentido inverso, a transformação de todos em uma página única (perfil) na internet, criando uma nova economia política da informação, cujo valor não decorre do controle das das “mensagens às massas” e do acúmulo e irradiação de conteúdos; mas da capacidade de conectar pessoas a informações, a ações e a outras pessoas, liberando-as para compartilhar todo tipo de conteúdo na rede. No atual paradigma do compartilhamento livestream, ao alimentar a criação de novos perfis de redes sociais, o valor reside na quantidade de interações geradas e na socialização dos conteúdos.

É por isso que hoje as iniciativas  de mídia mais valorizadas, como Facebook ou Twitter, se caracterizam por nada produzir de conteúdo, elas somente possibilitam, com suas plataformas, que um jornal ou o seu respectivo leitor atue, de modo igual, como criador e replicador de mensagens multimídia. Sem dúvida que isso acaba por constituir uma nova hierarquização social, tanto em termos de capitais (a hegemonia de empresas como facebook, Apple e Google sobre a indústria da notícia), quanto do ponto de vista da relação capital-trabalho (o furto do tempo social para criar gratuitamente valor e inovação às corporações de tecnologia).

Contudo, é inegável destacar que, nesse novo cenário de mídia, publicar significa que existem muito mais meios de comunicação social e que o “assunto do momento” não é apenas produto da rotina produtiva das instituições da notícia (imprensa), mas gerado pela mistura de veículos formais, coletivos informais e indivíduos, que fazem provocar a emergência não somente de novas formas de espalhar, de modo colaborativo, as notícias, mas sobretudo de contá-las. “A mesma ideia, publicada em dezenas ou centenas de lugares, pode ter um efeito amplificador que pesa mais do que o veredicto de um pequeno conjunto de mídias profissionais” (Shirky, 2008, p..67).

3. Mídia livre é cada vez mais utilizada como metodologia de projetos sociais de ONGs e governos: a mídia livre institucional/empresarial

Há uma pluralidade organizacional no âmbito do  comunicação independente.O gráfico demonstra que o midialivrismo se move em torne de três grupos: organizações sociais, coletivos e pequenos empreendedores. Assim, no mapeamento, encontramos  três modos de atuação midialivrista. O primeiro se realiza dentro das organizações sociais do terceiro setor (ongs, oscip, fundações, movimentos comunitários). Representam, no gráfico ao lado, 56% das mídias livres.São iniciativas de mídia associadas à projetos culturais/sociais. Mas a marca principal é a sua institucionalidade na forma de “organização social”. Em geral, mídias livres institucionalizadas são herdeiras do midiativismo de massa das décadas de 80 e 90, quando rádios comunitárias, imprensa sindical e organizações não-governamentais começam a lutar mais duramente pelo direito à comunicação, ao mesmo tempo que vão adquirindo “musculatura midiática”, ao conseguir concessões públicas de rádio e tevê e estruturas mais profissionalizadas para seus próprios veículos.

4. Experimentação na linguagem, cultura livre e democratização da comunicação formam cada vez mais o ideário do midialivrismo

O segundo tipo de mídia livre são os coletivos culturais (grupos, sites, revistas, que somados representam 32% das iniciativas estudadas). São grupos sociais formalizados ou não, cujo principal valor se explicita na experimentação.  O interessante dos coletivos é que eles são produtores de conteúdos e de linguagens experimentais ao mesmo tempo que são agentes políticos que exigem multiplicidade, novas formas de compartilhamento do conhecimento e democratização da comunicação.

5. Realizadores de mídia livre são empreendedores políticos.

E o terceiro modelo de mídia livre acontece no interior de blogs e sites independentes. Experiências que estamos chamando de ‘mídia de um homem só’, marcadas pela atuação de indivíduos na produção de opinião e notícias relevantes nos espaços públicos locais e nacionais. Esta ação individual cada vez mais é formalizada em uma institucionalidade microempreendedora, criando a figura dos chamados “empresários progressistas da comunicação”.

6. Estudante de jornalismo de hoje é o midialivrista de amanhã

A maior parte dos coletivos, instituições e inciaitivas individuais mais organizados de produção de mídia tem a presença do profissional formado em Jornalismo. A presença também é um marco tendencial simples de compreender:  após  a emergência da internet como suporte para a produção de notícias, jornalistas foram estimulados a produzir seus conteúdos de modo autônomo na rede, articulando uma nova cena de publicações de imprensa, alargando o espaço público midiático, o que fez acelerar um processo de renovação na linguagem jornalística e o aparecimento de uma profusão de periódicos especializados, com conteúdo atualizado e apurado de dentro dos acontecimentos. Essa cena mais blogueira do que corporativa só terá força à medida que se constitui de modo coletivo, como blogs de humor, blogs de cultura, blogs de economia, enfim, menos como um ato solitário e mais como uma ação coletiva. Essa “ação entre amigos” promoverá um rearranjo político naquilo que se convencionou no século passado de “opinião pública”. Se o jornalismo atua dentro dessas experiências, há de se argumentar que a produção de narrativas atuais e histórias, abrangentes e especializadas, e com denúncias e e críticas sobre o cotidiano que vivemos é algo que estão presentes na prática de vida midialivrista.

7. Formalização midialivrista chega com precarização

Há uma tendência forte de formalização do midialivrismo: 71% das iniciativas são feitas em organizações que possuem CNPJ. Sem dúvida, isso guarda relação com o permanente financiamento público via editais, ocorridos na última década, que exigem, com frequência, a institucionalidade formal como critério de acesso à recursos públicos e privado (em muitos casos, existe o aluguel de CNPJ, como estratégia de obtenção de recursos, gerando uma prática de cnpjotagem da cultura).

Contudo, essa tendência de formalização continua a se  realizar, embora boa parte do midialivrismo ainda esteja submetido a processos de trabalho precarizados. Para se ter uma ideia, 46% das pessoas envolvidas nas iniciativas estudadas atuam de forma voluntária. E 33% contrata free-lancers para o dia a dia do suas atividades.

Um outro dado que explicita essa precarização é a autonomia em relação à sede.  Apenas 51% das iniciativas estudadas possuem sede própria. Ausência de espaço próprio de atuação cria limitações no próprio amadurecimento da qualidade do trabalho e da ampliação da abrangência das atividades.

8. Produtos e processos próprios serão os principais recursos que o midialivrista possuirá para obter ganhos econômicos

É dentro desse quadro de precarização que a sustentabilidade é praticada por midialivristas e instituições. A pesquisa demonstrou que há um leque maior de estratégias de sustentação financeira dessas iniciativas. E não há entre elas o predomínio de uma única fonte de recurso para financiamento das atividades. O que conta ainda é uma certa “se-virologia”: a maior parte do trabalho é autônomo, sem vínculos formais e contratos de trabalho definidos, com excecção do midialivrismo institucional, onde o trabalho é mais organizado, mas a autonomia de trabalho é menor, já que os temas de trabalho obedecem a diferenets agendas institucionais.  O que há de novo – memso entre os precários – é a venda de produtos (modo de vida peculiar de se fazer uma notícia) como estratégia de ganho de renda, através de práticas como cobrança de mensalidades, prestação de serviços de assessoria/consultoria e realização de oficinas/palestras/coberturas. E isso demarca o fato de que o trabalho midialivrista é, ao mesmo tempo, uma atuação na produção de linguagens comunicacionais, mas, sobretudo, de conhecimento sobre o funcionamento de ferramentas, de construção de públicos e de produção de redes, para citar três habilidades típicas da geração que cria por conta própria (sem contrato de trabalho, o que é um grande problema), para além da cultura da doação e do patrocínio.

9. Nichos deverão ser cada vez mais mobilizados para fins econômicos.

A maior parte desses três modos de midialivrismo tem como unidade de atuação o território local: 51% das mídias livres tem sua comunicação  voltada à cidade e/ou ao bairro. A pesquisa revela que, mesmo sendo iniciativas interconectadas em rede, as mídias livres mobilizam realidades próximas a de seus autores/realizadores. Isso reforça a tese de que, com o incremento de alternativas tecnológicas de produção de informação e o barateamento da distribuição de conteúdo (principalmente online), as mídias livres passaram a ocupar os chamados nichos culturais, constituindo públicos assíduos e leais a seus produtos.

Assim, as mídias livres emergem como novos atores do espaço público informacional, mas trazendo consigo um dilema curioso, uma espécie de “sina dos nichos”, isto é, o fato de só existirem por ocupar uma franja de público que se nega a uma certa massificação. Quanto mais fragmentado o  público, mais forte é a influência do blogueiro A contrapelo, guetizada em públicos específicos, essas “novas mídias” têm dificuldades na criação de assuntos comuns e mais abrangentes, influenciando pouco um universo mais amplo de grupos da sociedade. Sem dúvida, uma das atividades atuais mais interessantes no Brasil é o surgimento de iniciativas que buscam interconectar os locais, criando circuitos de informação/cultura que são, ao mesmo tempo, local e nacional/global, buscando, assim, fazer do nicho um laboratório de diferenças que possam ser massificadas, através de novas modalidades de circulação e consumo de comunicação.

10. Formação é o principal dilema para qualificação da realização de mídias livres.

A rapidez da criação de novas ferramentas e gadgets que ampliam a produtividade do trabalho midialivrista (o que poderia ser lido também acelerada descartabilidade de tantos outras) faz com que a qualificação no uso de diferentes dispositivos de gravação de som e vídeo,; publicação de textos em blogs e redes sociais; difusão e técnicas de monitoramento e SEO;  uso de aparelhos móveis de alta perfomance;  a qualificação na invenção de narrativas multimídia nativas para a internet; técnicas de uso de plugins, temas e de desenho de sites;  sem contar na necessidade de se criar estratégias de sustenbtabilidade dos veículos (em fontes de financiamento existente na própria rede)  pede uma (urgente) formação continuada do midialivrista. Na pesquisa, formação aparece como hoje o maior empecilho para a qualificação.

“Essas dez constatações sobre o midialivrismo, de qualquer forma, demonstra a existência de uma jovem ecologia de mídia no Brasil. Um sistema midiático (in)dependente que já possui forte influência entre uma população jovem, que fica mais conectada à rede cibernética do que a outra rede, a televisiva – uma transformação até difícil de acreditar, mas que segue sendo atestada por diferentes medições de audiência. E podemos concluir que há dois modos de midialivrismo em vigor, modos que já disputam espaços, públicos e recursos, numa relação de tensão e/ou complementaridade: há o modo político (institucional, ou o “midialivrismo de OS”) e o experimental (como uma nova política de mídia, ou o “midialivrismo de coletivos”). A confusão reside na constatação de que um quer ser o futuro do outro, e isso está recheado de contradições”.


* Blogueiro e professor de Novas Mídias na Universidade Federal do Espírito Santo.